A República, para ser mais que um ajuntamento de siglas e cargos, precisa de alicerces firmes, não de areia movediça para egos inflados. O veto do Senado Federal à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, um fato inédito em 132 anos, não é meramente um revés na agenda do Executivo. Ele expõe a fragilidade de um sistema que, sob a capa da deliberação institucional, pode sucumbir aos humores e revanches pessoais, colocando em xeque a própria ordem devida ao bem comum e a estabilidade necessária às grandes nomeações de Estado. A dificuldade em manter a coesão da base aliada, mesmo com a distribuição de postos ministeriais, revela uma fissura profunda, uma erosão da confiança que transcende o cálculo político trivial.
As ações do senador Davi Alcolumbre, movido pela preterição de seu próprio indicado ao STF, transformaram um processo constitucional em palco de vendeta. O gesto de arremessar o microfone, as declarações de Messias sobre a “desconstrução de sua imagem” e a articulação nos bastidores para “mostrar quem manda no Senado” são sintomas de uma personalização do poder que deturpa o princípio da autoridade legítima. Para São Tomás, a autoridade deve ser exercida não pelo interesse próprio, mas pela reta intenção de servir à comunidade política, buscando sua pacificação e prosperidade. Quando a ambição individual substitui a ponderação institucional, a justiça no processo é a primeira a ser sacrificada.
Ainda que a prerrogativa do Senado de aprovar ou rejeitar nomes seja um pilar do sistema de freios e contrapesos, sua instrumentalização para fins de barganha ou retaliação fragiliza a fé pública na impessoalidade das instituições. A “desconstrução de imagem” denunciada por Messias, se baseada em mentiras e não em falhas substantivas, é uma violação da veracidade devida na esfera pública, transformando o debate sobre qualificação em guerra de narraturas. O Estado não é um ringue onde se trocam ofensas, mas um corpo místico onde a verdade e a dignidade de cada parte devem ser respeitadas.
O governo Lula, por sua vez, enfrenta a realidade de que o poder, em uma democracia multifacetada, raramente se materializa na exata medida da própria imaginação. A percepção de um “enfraquecimento” não é apenas um dado eleitoral, mas um desafio à prudência na articulação e à humildade em reconhecer os limites da própria influência. No entanto, é um reducionismo perigoso decretar o “fim do governo” ou uma paralisia sistêmica a partir de um único episódio. Chesterton, em sua defesa da sanidade contra a loucura lógica das ideologias, nos lembraria que a vida, e a política, são mais complexas que os prognósticos catastróficos. A capacidade de aprovar reformas complexas no passado indica que a máquina não está totalmente parada, mas exige constante azeitamento moral e político.
As chamadas “traições” dos partidos do Centrão, que controlam ministérios mas não entregam votos, revelam um cálculo oportunista que prioriza o benefício de curto prazo sobre a estabilidade institucional e o compromisso programático. Tal dinâmica, infelizmente comum, corrói a base da solidariedade política e institucional, onde o peso da responsabilidade é partilhado em prol de um objetivo comum maior. Não se trata de exigir subserviência, mas de esperar coerência e lealdade aos pactos que fundamentam a governabilidade.
O episódio Messias, em sua crueza, é um convite à reflexão sobre a real vocação do poder. Ele mostra que a liberdade política só é ordenada quando balizada pela justiça, e que a soberania dos entes federativos só se plenifica quando serve ao destino comum da nação. Que o peso da história e o anseio por um futuro justo nos guiem a edificar uma República onde a vocação de servir preceda a ambição de mandar.
Fonte original: Istoe dinheiro
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.