O cheiro de gasolina, para a sensibilidade moderna, carrega um estigma. O sonho elétrico, por sua vez, é tingido com as cores da pureza e da responsabilidade. Entre o passado a combustão e o futuro de emissão zero, surge agora um veículo que promete conciliar os dois mundos: o elétrico com extensor de autonomia (REEV). Montadoras ocidentais, na defensiva contra a agilidade chinesa e a ansiedade do consumidor, veem nele uma ponte pragmática. Mas um carro que, após esgotar sua bateria, consome o equivalente a um SUV a gasolina, exige um juízo mais honesto sobre a real direção de nosso caminho.
A atração é compreensível. O REEV oferece a paz de espírito de uma autonomia estendida e a conveniência de baterias menores e mais baratas, aproveitando a vasta expertise em motores a combustão. É, para muitos, um degrau mais fácil na escada da eletrificação, especialmente num cenário onde as políticas climáticas oscilam e os preços da recarga ainda geram incerteza. Para executivos da Renault e da Stellantis, é a chance de converter 70% dos clientes para veículos elétricos até 2030, sem o salto radical que alguns receiam. É uma solução que protege, por ora, a vasta cadeia de suprimentos ligada aos combustíveis fósseis.
Contudo, a Doutrina Social da Igreja, ao falar da ecologia integral, não nos permite a complacência com soluções de compromisso que obscurecem o real progresso. A veracidade, como virtude fundamental, impõe a clareza. Chamar de “elétrico” um veículo que mantém um motor a combustão, ainda que para recarregar a bateria, é forçar a realidade. A complexidade de ter dois sistemas de propulsão, com seus custos de fabricação e manutenção, coloca em xeque a promessa de uma transição simplificada. A verdadeira questão não é se o REEV é um passo, mas se ele é um passo na direção certa ou um desvio que, ao fim e ao cabo, nos fará perder tempo e recursos.
O argumento do Transport & Environment é incisivo: se o REEV substitui um carro a gasolina puro, há ganho; mas se toma o lugar de um veículo elétrico a bateria (BEV) puro, é uma perda. O risco é que este “meio-termo” atrase a adoção da tecnologia verdadeiramente sustentável e competitiva a longo prazo. Com a rápida evolução das baterias e da infraestrutura de carregamento, o investimento em REEVs pode se mostrar um “desvio custoso”, como bem apontam os críticos, tornando esses veículos rapidamente obsoletos. A proteção de investimentos legados não pode justificar uma estagnação da inovação que o bem da criação e o futuro das novas gerações exigem.
A responsabilidade das grandes montadoras transcende o balanço financeiro trimestral. Exige uma visão de longo prazo que contemple a ordem dos bens: a saúde do planeta e a justiça ambiental são superiores à conveniência comercial imediata. É preciso ter a fortaleza de abraçar a disrupção, mesmo quando ela implica custos e desafios maiores no presente. O caminho da verdadeira eletrificação não se faz com atalhos que disfarçam a dependência do passado, mas com o discernimento para investir no que é genuinamente inovador e com a coragem de educar o consumidor para a totalidade do salto.
O futuro não se constrói com rótulos enganosos ou com a perpetuação velada de vícios antigos. A verdadeira transição energética não é uma negociação de termos, mas uma reorientação radical de prioridades. Não basta ter um carro que “parece” elétrico por fora; é preciso que seja elétrico na sua essência, nos seus meios e no seu propósito. A clareza sobre o que é uma ponte e o que é o destino final é um imperativo moral antes mesmo de ser um desafio de engenharia.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.