No tabuleiro da política, onde cada movimento é calculado e cada peça tem seu valor, a recente guinada estratégica do Partido dos Trabalhadores para as eleições de 2026 desenha um cenário que, mais que um ajuste tático, revela um sintoma. A percepção de um avanço inesperado do Senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas, colocando-o numericamente à frente do Presidente Lula no Datafolha, precipitou uma confissão: houve “falhas na comunicação política” desde 2023. A resposta a essa falha, contudo, não mira apenas o horizonte; ela revisita o passado com um afinco que merece exame, em detrimento do imperativo da clareza e da veracidade.
A nova rota petista, delineada em seis eixos, é antes de tudo uma narrativa de contraste. Não se trata primordialmente de um avanço propositivo, mas de uma manobra reativa, que visa comparar incessantemente o governo atual com a gestão anterior (2019-2022). A “reconstrução nacional” torna-se um mote para reativar programas passados, e o debate econômico é politizado em oposições simplificadoras como “soberania versus entreguismo” e “distribuição de renda versus concentração”. A agenda se expande para novas bandeiras — fim da escala 6×1, combate ao feminicídio, tarifa zero, segurança pública integrada — enquanto a mobilização digital se intensifica e a pré-campanha já mira na associação de Flávio Bolsonaro a casos de corrupção pregressos.
Essa estratégia, embora politicamente compreensível para reverter um quadro adverso nas pesquisas, levanta uma preocupação legítima e profunda. Ao se ancorar tão firmemente na desqualificação do adversário e na reinterpretação do passado como um período de “estrago” a ser consertado, o governo do PT pode estar, paradoxalmente, admitindo uma dificuldade intrínseca em construir uma narrativa de sucesso autônoma. O foco excessivo no retrovisor e na demolição das gestões anteriores, em vez de um plano ambicioso e claramente articulado para o futuro, arrisca alimentar a percepção de que as “entregas” e políticas atuais não são, por si sós, suficientemente convincentes.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente na sabedoria de Pio XII, adverte sobre os perigos de reduzir o “povo” a uma mera “massa” a ser mobilizada por artifícios retóricos ou por paixões exacerbadas. A comunicação responsável em uma sociedade política exige a virtude da veracidade. Não se trata apenas de eficácia na persuasão eleitoral, mas de um dever fundamental para com a inteligência do cidadão, que deve ser informado e convidado ao discernimento, e não meramente manipulado por contraposições simplórias. A política, em sua essência, deveria ser uma arte de construir, não de perpetuar a demolição. A constante remissão ao passado como forma de justificar o presente, sem um olhar prospectivo e sem assumir plenamente a responsabilidade pelos próprios desafios de comunicação e gestão, fragiliza a ordem moral pública.
Os grandes temas nacionais, como a economia ou a segurança, requerem uma abordagem que transcenda a retórica ideológica. A distinção tomista entre causas e efeitos, por exemplo, nos ensina a olhar para a realidade em sua complexidade, buscando a raiz dos problemas e as soluções mais adequadas, e não apenas bodes expiatórios. Apresentar os debates econômicos como uma luta entre “soberania” e “entreguismo”, embora possa galvanizar uma parcela do eleitorado, dificilmente contribui para a elevação do debate ou para o esclarecimento de políticas públicas que exigem reta razão. Do mesmo modo, a tardia inclusão de pautas sociais, como a segurança ou o combate ao feminicídio, pode soar como resposta pragmática a uma urgência eleitoral, e não como fruto de uma visão orgânica de governo.
O risco é claro: uma campanha excessivamente reativa e desqualificadora pode gerar fadiga no eleitorado, que busca mais propostas concretas para seus desafios do que o eterno embate entre fantasmas do passado. A busca pela vitória a qualquer custo, instrumentalizando a história e a reputação alheia sem o devido respeito à verdade e à dignidade da pessoa, corrói os alicerces da confiança cívica. Um governo tem a responsabilidade de apresentar sua visão de futuro com clareza e laboriosidade, e não apenas de denunciar os supostos erros de seus antecessores.
A política, em seu grau mais elevado, é a arte de conduzir a cidade ao bem da vida comum. Isso exige coragem para propor, honestidade para reconhecer as próprias limitações e responsabilidade para com o destino da nação. Uma estratégia que se contenta em “apresentar quem é o adversário” por meio de acusações antigas, sem um projeto de futuro que se sustente por si mesmo, pode até vencer uma eleição. Mas falhará no dever mais elevado de nutrir a esperança e a veracidade que sustentam a vida de um povo.
Uma nação não se constrói apenas com a força de um governo, mas com a honestidade de seus propósitos e a elevação de seu debate. Ignorar essa verdade é condenar o país a girar em círculos, preso ao espelho do passado, quando o futuro exige uma bússola inabalável.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.