A honra militar, quando adulterada por favores e subterfúgios, não se eleva à bravura, mas se degrada à mera encenação de poder. A recente devolução do tenente Cláudio Barbosa da Silva à Polícia Militar do Rio de Janeiro, um ex-segurança e ajudante de ordens do ex-governador Cláudio Castro, não é um mero trâmite administrativo; é uma chaga aberta no tecido da justiça institucional que exige mais do que um remanejamento de pessoal. A controvertida promoção por bravura que o alçou ao oficialato em 2023, sob o manto do sigilo e da dúvida factual, é um convite à reflexão sobre a integridade da ordem pública e os perigos da estatolatria.
Os fatos são teimosos. Uma suposta ação heroica em junho de 2023, que teria envolvido confronto com criminosos armados, culminou na promoção de Barbosa. No entanto, nenhum criminoso foi preso, nenhuma arma foi apreendida. O vídeo de um vizinho, obtido pela imprensa, contradiz a narrativa oficial de fuzis e troca de tiros. Em vez de ser um ato de coragem incontestável, a ocorrência parece ter sido um arranjo conveniente para um homem com as conexões certas. Enquanto isso, o mesmo boletim que aprovou a promoção de Barbosa negou outros oito pedidos de policiais que, em ações de risco notável, enfrentaram traficantes armados e apreenderam arsenais. Há aqui uma disparidade gritante, um desequilíbrio na balança da justiça que corrói a meritocracia e a moral da tropa.
O argumento de que a promoção seguiu o regulamento, avaliando o risco e a interrupção da atividade criminosa, não se sustenta diante da ausência de evidências robustas e da contradição entre o relato oficial e a realidade filmada. Proteger a segurança do policial através do sigilo é uma prerrogativa legítima, mas a aplicação seletiva dessa proteção – para um, mas não para outros colegas em operações de igual ou maior risco – revela um critério viciado. Tal opacidade, quando quem se beneficia é um assessor próximo do governador, não protege, mas esconde. Não se trata de bravura, mas de conveniência, e o povo não é uma massa passiva a ser enganada por narrativas oficiais.
A verdadeira bravura, como São Tomás de Aquino nos ensina ao falar da virtude da fortaleza, manifesta-se no agir reto diante do perigo real e no suportar com constância a adversidade, sempre em ordem à razão e ao bem. Não é um título concedido pela proximidade ao poder, mas um reconhecimento de feitos que transcendem o dever ordinário por seu desprendimento e eficácia. O que se viu no caso do tenente Barbosa é a instrumentalização de um conceito nobre para fins particulares, uma prova da fragilidade institucional da PMERJ em resistir à tentação da politicagem. O atual governo, ao mover Barbosa para o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) e mencionar uma auditoria administrativa, dá um passo procedimental, mas que não purifica a mácula original da promoção.
É imperativo que a auditoria administrativa não se limite a meras exonerações, mas que revise a legalidade e a moralidade de todas as promoções por bravura concedidas sob a gestão anterior que apresentem indícios de irregularidade. A PMERJ e o Governo do Estado devem prestar contas à sociedade, explicando a discrepância factual e os critérios que permitiram tal distorção da justiça. O silêncio e o sigilo só ampliam a desconfiança. As leis que regem a promoção por bravura precisam de objetividade e clareza, para que não se convertam em “válvulas de escape” para a manipulação política. A honra da corporação, e a confiança que a sociedade deposita nela, dependem de uma reparação que não seja apenas formal, mas que resgate a veracidade e a justiça do mérito. É preciso restaurar os alicerces morais para que a ordem pública não se veja comprometida pela sombra do favoritismo.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.