O solo de uma nação, onde se cultivam as sementes da lei e da vida comum, revela sua vitalidade não apenas pela força de suas colheitas, mas pela profundidade e solidez de suas raízes. Quando partidos políticos, como a Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt, ascendem com a promessa de “despolitizar” o Estado e reorientá-lo para “os interesses do país”, é preciso examinar não só o vigor aparente da retórica, mas a composição do próprio terreno moral sobre o qual tais propostas pretendem edificar.
Há, certamente, uma frustração genuína em setores do eleitorado alemão, especialmente em regiões da antiga Alemanha Oriental. A percepção de uma imigração desordenada, a insatisfação com a burocracia e a suspeita de que currículos escolares se desviaram para doutrinas alheias à formação integral dos jovens são queixas que o tecido social não pode ignorar. O ceticismo em relação a um establishment por vezes distante e a busca por maior soberania local são sentimentos que clamam por uma resposta política honesta e eficaz. No entanto, a solução para estes males não reside na adoção de remédios que corroem a própria estrutura da justiça.
As propostas do AfD, como a expansão de deportações e a ‘remigração’ de “cidadãos não assimilados”, chocam-se com a dignidade da pessoa humana, preceito que transcende qualquer fronteira ou ideologia. Um Estado justo não pode conceber a cidadania como um conceito baseado na raça, nem tratar indivíduos — sejam eles solicitantes de asilo, estrangeiros com direito de permanência ou cidadãos de nascença — como peças intercambiáveis num tabuleiro político. A promessa de colocar “indivíduos obrigados a deixar o país… em detenção para aguardar deportação” exige um rigor jurídico que preserve os direitos fundamentais, e não a mera conveniência política. A Doutrina Social da Igreja sempre defendeu que a sociedade é anterior ao Estado e que a autoridade deve servir ao bem de cada pessoa, e não transformá-las em massa manipulável por um projeto etnonacionalista.
Ademais, a retórica da “desideologização dos currículos” e da “despolitização” do aparato estatal, embora soe como um apelo à neutralidade, deve ser confrontada com a veracidade. A nomeação de aliados e familiares, conforme as acusações de nepotismo contra membros do AfD, revela uma dissonância entre o discurso e a prática que compromete a integridade do serviço público. A verdadeira despolitização não consiste em substituir uma agenda por outra, mas em assegurar que a administração pública seja governada pela lei e pela busca da excelência, e que a educação tenha como norte a verdade objetiva e a formação da virtude, e não a imposição de uma única visão de mundo. Chesterton, com sua argúcia paradoxal, nos lembraria que o mais insano dos homens é aquele que tenta ser “lógico demais” na erradicação de tudo o que não se encaixa em seu esquema, esquecendo-se da vida concreta e de suas nuances.
A ascensão de movimentos como o AfD é um sintoma da falha dos partidos estabelecidos em responder de forma concreta e corajosa às ansiedades legítimas da população. Contudo, essa falha não confere carta branca para soluções que, em nome de uma soberania e identidade nacional, ferem princípios basilares de justiça e caridade. O Estado, para ser guardião do dever compartilhado, deve agir com reta razão e respeitar a ordem dos bens, onde a vida e a dignidade do ser humano ocupam o primeiro lugar.
A edificação de uma vida comum verdadeiramente próspera e justa depende da capacidade de discernir entre o descontentamento legítimo e as propostas que, em vez de curar, podem envenenar o solo da nação.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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