A fronteira entre o que é e o que se define, muitas vezes, não é uma linha geográfica, mas um precipício conceitual. Os Estados Unidos anunciam uma nova estratégia antiterrorismo que mira a América Latina, classificando facções criminosas como ameaças terroristas. O Brasil, em contrapartida, reage com uma defesa resoluta da soberania, temendo a militarização e o histórico de intervenções, e insiste em tratar o problema como crime organizado transnacional, sem os rótulos que, para o Itamaraty, seriam “excessivos e contraproducentes”. Nesta tensão entre nomes e naturezas, reside a chave para uma resposta justa e eficaz ao mal que se alastra.
A prudência do governo brasileiro, ao recusar a militarização e alertar para as violações de direitos humanos que marcaram a “guerra ao terror” dos anos 2000 – de Abu Ghraib a Guantánamo, e os “falsos positivos” na Colômbia – tem raízes em uma lição amarga da história. A Doutrina Social da Igreja sempre elevou a dignidade da pessoa humana acima de toda estratégia bélica e salientou o princípio da subsidiariedade: o Estado, embora legítimo em sua esfera de ação, não deve esmagar os corpos intermediários, nem o Estado maior sobrepujar as soberanias nacionais com pretextos para a intervenção. A defesa da autonomia para combater o crime por meio da inteligência e do rastreamento financeiro, como propõe o Brasil, é, em princípio, um caminho conforme a uma ordem justa e à cooperação entre iguais.
Contudo, a realidade tem uma dureza que não se dobra a conveniências conceituais. Há uma sanidade, como diria Chesterton, em reconhecer as coisas pelo que são, e não em tentar encaixá-las em categorias que já não as contêm. O crime organizado de hoje, especialmente o transnacional, transcendeu a mera busca de lucro. Ele desestabiliza governos, corrompe instituições, controla territórios e emprega a violência extrema não apenas para coagir, mas para aterrorizar populações, visando, em última instância, submeter a ordem social à sua vontade. Quando um cartel adquire poder militar comparável ao de pequenas nações, quando suas táticas produzem medo generalizado e paralisia política, a linha entre “crime organizado” e “terrorismo” se esvai na experiência brutal dos que o sofrem.
A verdadeira justiça exige que nomeemos a ameaça com a veracidade que ela possui. Não é um debate sobre o fim, mas sobre os meios e a natureza intrínseca do fenômeno. Se um grupo usa o terror como tática, com objetivos políticos ou de controle de poder — mesmo que sua raiz econômica seja forte —, ele exibe, de fato, a característica do terrorismo. Negar essa fusão é uma ingenuidade estratégica que pode incapacitar a resposta. A recusa categórica do Brasil, embora motivada por preocupações legítimas com a soberania e a não-intervenção, corre o risco de ser uma camisa de força ideológica que impede o reconhecimento pleno da escala e da complexidade do desafio. Não se trata de ceder à estatolatria de uma potência hegemônica, mas de avaliar a ameaça real e seus métodos.
O caminho virtuoso reside no discernimento político, que distingue entre o princípio permanente e a aplicação contingente. A cooperação internacional não pode ser um pretexto para a militarização indiscriminada ou para a violação de direitos, mas não pode ser impedida por uma interpretação rígida da soberania que ignora a interconexão global do crime. Pelo contrário, Pio XI, ao defender a subsidiariedade, sempre instou à solidariedade entre nações. O combate ao crime transnacional exige uma arquitetura de segurança que combine inteligência de ponta, cooperação policial integrada e desmantelamento financeiro, como defende o Brasil. Mas também exige a fortaleza de reconhecer que, em casos extremos, onde a violência política e a desestabilização se tornam endêmicas, a resposta proporcional do Estado, e a cooperação em sua aplicação, pode demandar ferramentas que vão além do aparato policial convencional, sempre sob o estrito controle da lei e com a máxima proteção da pessoa humana.
A grande questão, portanto, não é se devemos cooperar, mas como fazê-lo com justiça e veracidade. Superar a retórica ideológica e focar na realidade da ameaça é o primeiro passo. Construir um consenso multilateral que respeite a soberania de cada nação, enquanto provê os instrumentos necessários para combater o mal em sua forma mais virulenta, é o desafio. Só assim a comunidade internacional poderá se defender, sem repetir os erros do passado e sem se render à ingenuidade de quem se recusa a nomear a sombra que cresce.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.