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Poder Familiar na Política: O Bem Comum e a República

A ascensão familiar na política brasileira, de "verdureiros" a senadores, levanta a questão crucial: a lealdade de clã sobrepõe-se ao serviço público? O artigo examina os riscos da concentração de poder e a diluição da accountability na república.

🟢 Análise

A mesa de feira, onde se pesam os legumes e se troca palavra com o freguês, é um altar do comércio, um símbolo da proximidade e do labor. Não é por acaso que uma família de verdureiros ascendeu na política brasileira, com o discurso da “nova política” e do “empregado do povo”. Há algo de genuíno no apelo à simplicidade e à lida direta com a gente comum, algo que Chesterton, com sua gratidão pelo ordinário, talvez celebrasse como a beleza do homem comum engajado na vida da pólis. Mas a república, meus caros, não é uma quitanda ampliada, e o governo de uma nação não se mede pela agilidade no balcão da feira, mas pela solidez dos princípios que regem a vida em sociedade.

A narrativa da família Azevedo, de Divinópolis para o Senado, é sedutora em sua promessa de quebrar barreiras. Quem não deseja um político próximo, que “abra a porta da prefeitura para a população”? Contudo, é preciso distinguir a virtude da acessibilidade da miragem do populismo. O risco maior não está na origem humilde ou na coesão familiar – que são bens em si – mas na confusão entre o patrimônio privado e o serviço público. Quando irmãos coordenam mandatos de vereador, prefeito, deputado e senador, e essa articulação é abertamente admitida como fundamental, surge uma preocupação legítima: a lealdade familiar pode, inadvertidamente, sobrepor-se à lealdade devida à ordem institucional e ao bem de todos.

A Doutrina Social da Igreja, particularmente com Pio XI, sempre defendeu o princípio da subsidiariedade, que busca fortalecer os corpos intermediários da sociedade, evitando que o Estado centralize funções que podem ser exercidas por instâncias menores. Mas esse princípio também implica que cada esfera de governo e cada ofício público tem sua própria autonomia e responsabilidade. Não se trata de esmagar o pequeno, mas de proteger o público. A articulação familiar no poder, quando excessiva, pode criar uma estrutura que, em vez de fortalecer os corpos intermediários (como um município livre e autônomo), os submete a uma lógica de clã, transformando o “povo” em “massa” eleitoral a ser mobilizada, em vez de cidadãos corresponsáveis na construção da cidade.

O discurso de “avanço de 40 anos em 4” na gestão de Divinópolis, por mais bem-intencionado que seja, padece de uma falta de veracidade objetiva que a justiça política exige. A humildade nos lembra que o progresso real é resultado de processos complexos, de longa duração, e de uma multiplicidade de atores, não de uma única família ou gestão. A autopromoção, desprovida de métricas transparentes e verificáveis por terceiros independentes, esvazia o debate público e dificulta a fiscalização. A política, para ser reta, precisa de dados e de fatos, não apenas de um bom enredo.

Quando Eduardo Azevedo afirma que os irmãos são cristãos de diferentes religiões, mas unidos na defesa dos “valores cristãos universais” como a defesa da vida e da família, ele aponta para algo essencial: o caráter moral e universal da lei natural. Mas a defesa de tais valores na esfera pública exige mais do que a mera retórica. Ela demanda que a ação política traduza esses princípios em políticas públicas justas, transparentes e que respeitem a pluralidade da sociedade. Defender “valores cristãos” não pode ser uma licença para a concentração de poder ou para a diluição da justiça institucional sob o pretexto de “proximidade”. A Igreja sempre ensinou que a autoridade política é um encargo, não uma propriedade, e que seu fim é o bem comum da cidade, não a perpetuação de um sobrenome.

É o paradoxo de nosso tempo: muitos dos que se erguem contra a “velha política” acabam, sem o querer, ou querendo demais, recriando seus piores vícios sob um disfarce de novidade. A sanidade nos recorda que o serviço público não é herança de família, mas encargo de cidadão. A ascensão de uma família, por mais meritória que seja em sua trajetória, só servirá ao povo se ela for capaz de transcender a si mesma, de instituir mecanismos de accountability robustos e de garantir que o acesso ao poder seja verdadeiramente plural, e não privilégio de um círculo fechado.

A questão central, portanto, não é a origem da família ou sua capacidade de se articular, mas se a máquina política que constroem serve aos princípios permanentes da justiça e do bem da cidade, ou se ela tende a reproduzir, sob o verniz da simpatia popular, um modelo onde o poder se concentra e a accountability se dilui. A república precisa de servidores, não de herdeiros.

Fonte original: O TEMPO

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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