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Política no Acre: Poder, Judicialização e o Bem Comum

No Acre, a política prioriza manobras de poder e judicialização, desviando do bem comum. Este artigo critica a 'estatolatria' e propõe a verdade e justiça da Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

O complexo tabuleiro da política acreana, com seus movimentos e contramovimentos, pode, à primeira vista, simular um dinamismo virtuoso. Observa-se um palco de articulações e disputas, onde figuras de peso disputam espaços, alinham-se e desalinham-se com uma celeridade que impressiona. Mas, sob a superfície vibrante, o que se revela não é tanto a efervescência democrática de uma sociedade em busca do melhor governo, mas antes um teatro de sombras, onde a dança das alianças parece servir mais à manutenção do poder e dos interesses particulares do que à edificação do bem comum.

É nesse cenário que a judicialização da política emerge não como um último recurso da justiça, mas como um campo de batalha estratégico. O intrincado caso do governador Gladson no STJ, com a retirada de provas tidas como ilegais pelo STF, embora tecnicamente defensável, lança uma sombra sobre a percepção pública de equidade e imparcialidade. Da mesma forma, a proposta do senador Márcio Bittar de adiar a sabatina de Jorge Messias para o STF para depois das eleições de 2026, com o argumento de que um governo “afundado em escândalos” perdeu a legitimidade moral para indicar ministros, explicita a instrumentalização do processo judicial e das instituições superiores. Tais episódios, mais do que meros ritos, tensionam a virtude da justiça e corroem a veracidade do discurso público, pois a forma se sobrepõe ao fundo, e a conveniência política, por vezes, suplanta a busca inquebrantável pela verdade.

A plasticidade das lealdades partidárias é outra faceta deste espetáculo. Vê-se, por exemplo, o PDT do Acre, aliado a um campo político bolsonarista, em franca dissonância com a diretriz nacional do partido, que declara apoio ao Presidente Lula. É um paradoxo que expõe a contradição moderna, onde a coerência ideológica se dobra aos cálculos regionais, revelando que os rótulos de “progressista” ou “bolsonarista” podem ser, localmente, máscaras convenientes para arranjos pragmáticos. A declaração de um personagem do MDB, que se recusa a “tomar o gole amargo de ser aliado com o PT” novamente, mostra que as alianças são muitas vezes tecidas na trama de rancores históricos e conveniências imediatas, e não em um compromisso programático sólido e orientado pelo bem da cidade.

Nesse contexto, a busca por “novas caras” na política pode ser um mero jogo de espelhos. As candidaturas que emergem, embora tragam a promessa de renovação, enfrentam um sistema entrincheirado, onde as “velhas caras cansadas” da política, com suas redes de apadrinhamento e seu capital político acumulado ao longo de décadas, detêm uma vantagem inegável. A indicação de Mário Sérgio para o TCE, supostamente sem apadrinhamento, serve como exceção que confirma a regra, destacando a norma da influência pessoal sobre o mérito. A ausência de uma verdadeira renovação, que transcenda a troca de personagens para abraçar uma mudança estrutural e ética, é um sintoma da persistência de um controle oligárquico do poder.

A crítica católica a essa dinâmica de poder não se detém nas especificidades das alianças, mas mira a raiz do problema. Quando a vida política se torna uma sucessão de manobras táticas, de instrumentalização das leis e das ideologias para a captura e manutenção do poder, desvia-se de seu fim essencial. Configura-se uma forma de “estatolatria”, onde o Estado, em vez de ser um servo do povo, para a promoção da justiça social e do bem comum, transforma-se num ídolo a ser possuído. Nessa inversão da ordem dos bens, o cidadão comum, o “povo” chamado à participação responsável, é reduzido a uma “massa” a ser manipulada pelas narrativas convenientes, pelos espetáculos judiciais e pelas promessas vazias.

A verdadeira política, conforme a Doutrina Social da Igreja, exige que os responsáveis pelo governo não se vejam como senhores de um jogo, mas como administradores da justiça e da paz. Ela demanda uma política de princípios, onde a virtude da justiça guie as decisões sobre a distribuição de encargos e direitos, e a veracidade presida o discurso público, afastando a propaganda e a manipulação. Isso implica fortalecer os corpos intermediários da sociedade, os partidos e associações, para que sirvam como canais autênticos de representação, e não como meros veículos de ambições pessoais ou faccionais.

Enquanto as luzes do palco político do Acre continuarem a iluminar uma incessante dança de máscaras, sem um compromisso firme com a verdade e a justiça, a promessa de uma vida pública realmente livre e próspera para o povo permanecerá como um horizonte distante. A verdadeira medida de uma vida política saudável não reside na agitação de seu palco, mas na perene busca pela justiça e pela verdade que sirvam a todo o povo.

Fonte original: ac24horas.com – Notícias do Acre

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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