Um partido político, à semelhança de um edifício, não se ergue sobre a poeira de um sobrenome ou a argamassa de um parentesco, mas sobre o alicerce firme do mérito, da coerência e da capacidade real de servir o povo. A recente articulação no Partido Liberal, que destinou o estratégico número “2222” ao pré-candidato a deputado federal Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, acende um alerta que vai muito além da mera “ciumeira” ou “vaidade” que ele aponta nos seus detratores internos. Há, aqui, um problema substantivo de justiça e de veracidade no desenho da própria vida partidária.
É legítimo que um partido busque fortalecer sua bancada com nomes que julga promissores. Contudo, a lógica da pura chancela familiar, sobretudo diante de um histórico de sete derrotas eleitorais do candidato em questão, desvia-se perigosamente da reta razão. Não se trata de negar a influência de laços sanguíneos – a família é, afinal, anterior ao Estado e a qualquer associação intermediária – mas de distinguir os planos. Uma organização política, para cumprir sua função de serviço público, deve priorizar a competência e a efetividade eleitoral de seus quadros, e não a mera conveniência dinástica. A premissa de que o sobrenome “Bolsonaro” é, por si só, um “puxador de votos” infalível, ignorando a performance pretérita, é uma aposta arriscada que beira a ilusão.
A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, insiste na importância da subsidiariedade e da justiça social também nas estruturas intermediárias. Isso implica que um partido deve fortalecer o que está perto – os militantes, os pré-candidatos com histórico de dedicação e real potencial eleitoral – em vez de impor soluções vindas de cima que ignoram o discernimento dos seus membros e a realidade dos fatos. Quando o “fogo-amigo” irrompe, ele não é sempre fruto de inveja pueril; muitas vezes, é o sintoma de uma discórdia legítima sobre a estratégia, a distribuição de recursos e a própria definição do que constitui o bem do partido. Ignorar tais críticas como “pura picuinha” é uma falha de honestidade intelectual e de governo sábio.
Ainda que o ex-presidente Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto possuam a autoridade de decisão, essa autoridade deve ser exercida com prudência e com vistas ao bem comum do partido e do eleitorado, não à perpetuação de um clã. A perda de figuras com expressiva votação anterior, como o próprio Renato Bolsonaro lamenta, deveria impulsionar o PL a um exame de consciência sobre como construir lideranças sólidas e autônomas, capazes de sustentar o projeto político para além da influência de um único homem ou família. Confiar em atalhos dinásticos é construir sobre areia, negligenciando a formação de uma base partidária que valha por si.
O eleitorado, cada vez mais cético e exigente, tem o direito de esperar que as candidaturas reflitam um compromisso com o mérito, a transparência e a efetiva representação. Quando a escolha de um número de campanha ou o apoio incondicional se dão em detrimento da justiça interna e da avaliação realista do potencial, o partido arrisca-se a ser percebido não como um vetor de ideias e projetos, mas como um balcão de favores familiares. Tal conduta enfraquece a confiança pública e compromete a capacidade da vida política de atrair os melhores para o serviço da nação.
A verdadeira força de uma associação política não reside na unção familiar, mas na fidelidade à verdade e na coragem de servir o bem da cidade com seus melhores e mais justos filhos.
Fonte original: VEJA
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.