O espetáculo tragicômico da política peruana, com sua eleição presidencial a se arrastar por contagens voto a voto, é mais que um mero drama eleitoral: é um diagnóstico inclemente de um país que se move em círculos, tentando edificar uma casa em um solo que cede a cada nova investida. A disputa milimétrica entre Keiko Fujimori, Roberto Sánchez Palomino e Rafael Aliaga, onde a diferença entre o segundo e terceiro colocados mal atinge os três mil votos, não é um sinal de vibrante pluralismo, mas a tradução eleitoral de uma profunda fratura no tecido da nação.
A superfície dos fatos revela números, nomes e datas: 35 candidatos, Keiko Fujimori com 17% dos votos, Sánchez com 12% e Aliaga com 11,9%. Mostra um palco onde se confrontam narrativas distintas, da “guerra contra o Sendero Luminoso” evocada pela direita à “reivindicação da cor da pele e do chapéu” do nacionalismo popular. Há quem acene para Washington, há quem se aproxime de Pequim via o estratégico Porto de Chancay. Mas, sob a retórica e as cifras, pulsa uma realidade que faz qualquer projeto de longo prazo se dissolver como areia entre os dedos: nove presidentes em dez anos, destituições sumárias e uma instabilidade crônica que paralisa o Estado e mina a vida ordinária do cidadão.
Não se trata aqui de julgar a legitimidade de cada voto, mas de olhar para a disfunção de um sistema. A autoridade legítima, segundo o que nos ensina o Magistério da Igreja e a reta razão, não é um fim em si, mas um meio para a consecução da ordem justa e da vida comum. Quando um Parlamento tem o poder desproporcional de triturar Executivos, quando o jogo político se fragmenta em 35 facções que sequer conseguem formar uma maioria mínima, o que se vê não é um saudável contrapeso, mas uma patologia institucional. Pio XII alertava sobre a diferença entre “povo” – um corpo orgânico e dotado de consciência, capaz de expressar sua vontade por meio de instituições estáveis – e “massa”, um agregado sem forma, manipulável por sentimentos voláteis e interesses particularistas. O Peru, nesse ciclo de pulverização e destituição, parece mais se mover como uma massa ao sabor das correntes, do que como um povo que edifica seu destino.
A virtude da justiça, neste cenário, é a primeira a ser ferida. Ela exige que a distribuição de encargos e direitos não seja arbitrária, mas ordenada ao bem da cidade. Como construir essa ordem quando a cada novo presidente, o passado é rasgado e o futuro, incerto? A denúncia de “fraude” sem provas, feita por alguns candidatos, exemplifica a corrosão da veracidade no debate público, instrumentalizando a desconfiança generalizada em vez de buscar a verdade devida ao outro. A polarização entre as elites urbanas e as zonas rurais, entre o “neoliberalismo” e o “nacionalismo popular”, não encontra caminhos para a conciliação, mas apenas novas frentes de batalha. É um ciclo que, na visão de um Chesterton, beira a loucura lógica: tentar resolver a desordem repetindo o gesto que a provoca.
A resposta para a chaga peruana não reside em uma mera alternância de partidos ou personalidades, mas em uma profunda reconstrução moral e institucional. O Peru precisa de corpos intermediários que sejam verdadeiramente representativos, capazes de mediar os conflitos e construir consensos fora da arena eleitoral frenética. Precisa de uma transparência curricular e institutos de virtude que formem cidadãos capazes de discernir entre o populismo efêmero e o trabalho árduo da edificação nacional. A influência de potências externas, como Estados Unidos e China, agrava o quadro, transformando a política interna em um espelho de disputas geopolíticas maiores, comprometendo a soberania e a capacidade do país de defender seus próprios interesses.
A eleição em curso, com sua indefinição e seus riscos, é um chamado urgente à magnanimidade dos líderes e à justiça intrínseca das instituições. Não basta eleger um presidente; é preciso edificar um Estado que possa governar, servir e enraizar suas políticas em um solo firme. Sem essa reconstrução paciente dos alicerces, o Peru continuará refém de um labirinto político, onde cada saída é apenas uma nova entrada para o mesmo círculo vicioso.
Fonte original: Revista Fórum
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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