A cada dia que se estende o véu sobre a contagem dos votos no Peru, o silêncio da incerteza se adensa. Não é o silêncio solene da espera por um veredito, mas o chiado agourento de um motor que falha no meio da corrida. Já se foram dez dias desde as eleições, e o que deveria ser a manifestação cristalina da soberania popular converteu-se em um pântano de atas irregulares, renúncias ministeriais e a descredibilização das próprias engrenagens da república.
Os fatos são claros, e sua gravidade inegável: um chefe de órgão eleitoral que se demite pouco antes de depor sobre irregularidades, classificando-as como “técnicas e operacionais”; a descoberta de mais de mil cédulas num contêiner de lixo em plena capital; a prorrogação inédita do dia de votação porque materiais não chegaram a tempo para 50 mil eleitores. Somam-se a isso quase um milhão de votos distribuídos em mais de cinco mil atas com irregularidades, cada uma delas exigindo um processo de revisão que se arrasta por dias. É verdade que missões internacionais atestam não haver, até o momento, provas concretas de fraude. Mas a questão não é a comprovação de um ato doloso individual, e sim a erosão sistêmica da confiança pública.
A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu que a autoridade política, para ser legítima, deve servir ao bem comum e respeitar a dignidade da pessoa humana, o que inclui o direito a um processo eleitoral justo e transparente. Pio XII, em sua distinção entre “povo” e “massa”, advertia contra a manipulação da vontade coletiva. Um povo exerce sua soberania por meio de instituições íntegras, que traduzem sua voz sem distorções; uma massa, ao contrário, é um agglomerado amorfo suscetível a ser enganado e conduzido. Quando as falhas são tão numerosas, tão grosseiras e tão persistentes, a despeito das intenções declaradas, o processo eleitoral falha em elevar a massa ao status de povo autodeterminado.
A tentativa de reduzir uma avalanche de disfunções a meros “problemas técnicos” ou “falhas graves” é uma afronta à inteligência e à veracidade. Diria o Chesterton que há uma linha tênue entre a excentricidade e a insanidade, mas que tal linha se torna uma muralha intransponível quando a loucura se veste de “problema técnico” para justificar o que, na prática, é um desarranjo fundamental da ordem. O cientista político que aponta as “impugnações em massa” como tática para prolongar o processo, embora correto, apenas revela a fragilidade de um sistema que, por sua ineficiência e opacidade intrínsecas, se torna terreno fértil para a má-fé e a desestabilização.
É uma questão de justiça. Justiça não é apenas a ausência de um crime comprovado; é a presença de uma ordem que garante a cada um o que lhe é devido. E ao cidadão peruano é devido um processo eleitoral que não o force a duvidar, que não o obrigue a esperar por semanas por um resultado básico, que não descarte suas cédulas no lixo e que não demita seus gestores em meio ao caos. A prolongada instabilidade política do Peru, com oito presidentes em dez anos, é um atestado vivo de que a fragilidade institucional não se resolve com eufemismos procedimentais.
A governabilidade futura da nação, e a própria paz social, dependem da capacidade de suas instituições de inspirar confiança. Se o voto, este alicerce elementar de qualquer república, é corroído por uma mistura de desorganização e falta de transparência, o edifício inteiro fica sob risco. Não se trata de uma exigência meramente jurídica, mas moral. A ordem da política deve espelhar a ordem da verdade, e a verdade é que o processo eleitoral peruano está ferido em sua integridade mais elementar.
A república peruana não precisa de um remendo retórico para cobrir suas chagas, mas de uma reconstrução moral dos alicerces que garantam que a voz do povo não seja apenas contada, mas verdadeiramente ouvida e respeitada.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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