A solidez de um edifício não se mede apenas pela imponência de sua fachada, mas pela integridade de seus alicerces. É com essa imagem que se deve encarar a aparente contradição de uma potência que, após a Segunda Guerra, se empenhou em construir um arcabouço de direito internacional – das Nações Unidas aos Acordos de Genebra – e agora é descrita, por vozes cada vez mais audíveis, como agindo à margem dessas mesmas normas. A tese de que a política estadunidense e israelense em relação ao Irã configura uma “agressão” e leva ao declínio da hegemonia americana, mesmo que formulada em termos militantes, impõe uma reflexão sobre a real constituição da ordem mundial e das virtudes que a sustentam.
Não se pode ignorar a complexidade do tabuleiro geopolítico, onde as ações do Irã, como seu programa nuclear e o apoio a proxies regionais, são percebidas por muitos como ameaças legítimas que demandam contenção. Reduzir essa dinâmica a um mero ato de agressão unilateral seria simplificar em demasia uma teia de interesses e medos antigos. Contudo, mesmo admitindo a existência de ameaças reais, a maneira como uma nação responde a elas, e sobretudo a forma como governa a si mesma no processo, é o cerne do problema. A objeção mais forte e perturbadora não reside na tática empregada no Golfo Pérsico ou no Estreito de Ormuz, mas no enfraquecimento das próprias instituições democráticas da nação que se proclama bastião da liberdade.
Quando o Congresso abdica de suas prerrogativas em matéria de guerra, quando os tribunais cedem à pressão e a inteligência é convenientemente ignorada em favor de narrativas predefinidas, a verdadeira justiça é ferida em sua fonte. São Pio XII advertia sobre os perigos de uma massa desorganizada contra um povo consciente; aqui, a massa parece ser a própria arbitrariedade que corrói os quadros profissionais do Estado e as garantias da vida cívica. O Magistério da Igreja ensina que a autoridade legítima não é um poder discricionário, mas uma ordenação à reta razão e ao bem dos governados, ancorada na lei moral. Quando a força é exercida “sem trégua, sem misericórdia” – e pior ainda, quando se ameaça explicitamente “apagar a civilização” de um povo – rompe-se com qualquer vestígio de proporcionalidade e discriminação, pilares da legítima defesa.
A retidão da veracidade exige que se encare a realidade: o declínio de uma hegemonia não é apenas fruto de erros estratégicos, mas de uma erosão moral que mina a confiança interna e externa. Chesterton, em sua lucidez paradoxal, diria que a verdadeira loucura não está em ver o mundo sob uma luz diferente, mas em negar a sanidade da própria ordem que se deveria proteger. A política externa de um país, em última análise, é um espelho de sua política interna. Se os pilares da governança interna – a voz do legislativo, a imparcialidade do judiciário, a honestidade da inteligência – são desmantelados em nome de uma lealdade ideológica, a legitimidade da ação exterior se esvai.
O que se testemunha, portanto, não é meramente um realinhamento de poder global, mas uma crise de fundamentos. Uma na nação que se esquece de que a ordem jurídica, a transparência na deliberação e o respeito pelas instituições são o verdadeiro lastro de sua força, caminha por um precipício. A tentação da estatolatria, da concentração de todo o poder e arbítrio nas mãos do Executivo, é um erro recorrente na história, denunciado por Pio XI, e que volta a assombrar mesmo as mais antigas democracias.
Não se pode almejar a paz e a estabilidade mundial construindo sobre alicerces movediços de arbitrariedade e desprezo às normas que se jurou defender. A verdadeira força de uma nação reside na coerência de seus princípios e na integridade de suas ações. Quando a base do direito se corrompe, toda a construção humana corre o risco de desabar, não por força externa, mas por falha própria.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.