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Roraima: Festa de Milhões e o Gás Mais Caro do País

Roraima investe milhões em festival com cachês altos enquanto o gás de cozinha atinge maior preço do país. A coluna questiona a retidão dos gastos públicos e a justiça social.

🟢 Análise

O odor do gás de cozinha, com seu preço nas alturas, há de ser mais pungente em Roraima do que o dos fogos de artifício que anunciarão o festival “Viva Roraima 2026”. É nesta dissonância que reside o cerne de um debate que se estende para muito além das fronteiras do estado, questionando não a validade da celebração, mas a retidão dos juízos que a tornam possível. Enquanto bandas nacionais como Biquini Cavadão e Chimarruts preparam suas performances com cachês que somam centenas de milhares de reais – valores devidamente publicados no Diário Oficial – a mesma população arca com o botijão de 13kg ao maior preço de referência do país. A legítima preocupação com a transparência na aplicação de recursos públicos e com o equilíbrio orçamentário que contemple tanto o fomento cultural quanto as demandas por serviços básicos é a voz do bom senso que não pode ser calada pela música alta.

É certo que a cultura tem seu valor, e que grandes eventos podem, em tese, impulsionar a economia local, atraindo turismo e gerando empregos temporários. A Doutrina Social da Igreja, que defende a subsidiariedade, reconhece a autonomia dos entes federativos para definir suas prioridades e investir no desenvolvimento regional, o que inclui a promoção do lazer e da identidade cultural. Mas esta autonomia não é um cheque em branco. Ela exige justiça na administração e honestidade na prestação de contas. A falácia reside em apresentar a escolha entre cultura e sustento como um jogo de soma zero, quando na verdade, o problema é a priorização e a comprovação do retorno social efetivo. Não se trata de negar a arte, mas de exigir que sua celebração não se dê às custas da dignidade fundamental do povo, nem pareça indiferente à sua aflição diária.

Esta tensão é um sintoma da vida pública em um país onde a veracidade parece rarear. O Tribunal Superior do Trabalho, por exemplo, viu-se diante da aberração de jurisprudências inventadas por inteligência artificial não revisada por advogado – um uso da tecnologia que despreza a verdade processual e a responsabilidade profissional, gerando multa e sanções à OAB. Como esperar a retidão nos gastos públicos se a própria estrutura da justiça se vê esvaziada pela negligência e pela simulação? A perda de cargo de policiais militares condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo um coronel que comandava a PM do DF, é uma medida que, embora justa, sublinha a profunda falha na ordem moral pública. Não há glosa para a ausência de dever cívico e de fidelidade à lei.

Essa falta de clareza e de um firme senso de responsabilidade perpassa a esfera política. O debate sobre a escala de trabalho 6×1, que busca uma mudança para a dignidade do trabalhador, se arrasta em um impasse político, refém de negociações entre governo e Congresso. A decisão do Supremo Tribunal Federal de aplicar a aposentadoria compulsória aos 75 anos a empregados públicos, sem direito a verbas rescisórias, enquanto ainda há divergências, suscita a delicada questão da justiça na transição e no reconhecimento dos direitos adquiridos. Tais fatos, aparentemente desconexos, tecem uma tapeçaria onde a opacidade e a discricionariedade parecem prevalecer sobre a reta razão e o bem-estar coletivo.

O paradoxo que Chesterton talvez apontasse é o de uma sociedade que se esmera em construir megaeventos, mas falha em sustentar as bases do cotidiano. Uma sociedade que clama por eficiência tecnológica, mas tolera a fraude e a falta de accountability. O real bem da cidade não se mede pelos aplausos mais estridentes, mas pela capacidade de oferecer uma vida digna, com acesso ao essencial e à cultura, sem que um sacrifique o outro. A cláusula de desempenho partidário, que busca racionalizar a profusão de siglas, é uma tentativa, ainda que burocrática, de restaurar alguma ordem em meio ao caos. Mas a ordem verdadeira começa na consciência individual e na responsabilidade coletiva.

Não se trata de vetar a música, nem de demonizar o espetáculo. Mas sim de demandar que o governo, ao usar o dinheiro do povo, explique com clareza cristalina como cada real gasto na festa ressoa positivamente na mesa, no trabalho e na vida de cada roraimense. Que a alocação de recursos seja um ato de justiça social, e não um mero aceno populista ou um artifício para desviar o olhar do custo do gás. As prioridades de uma nação se revelam não nos palcos que monta, mas nas mesas que sustenta. É ali, na vida comum, que se prova a fidelidade do gestor à comunidade.

A verdadeira festa de um povo se celebra quando a balança da justiça pesa com honestidade, e cada custo se traduz em benefício real para a casa de todos.

Fonte original: Folha de Boa Vista: Not�cias, Imagens, V�deos e Entrevistas

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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