A balança que pesa a legitimidade de um pleito democrático não se contenta apenas com a ausência de fraude comprovada. É preciso mais que a negação de um delito explícito; é fundamental a certeza da lisura em cada etapa, a transparência cristalina que resplandece sobre todo o processo. No Peru, a recente eleição presidencial, com sua apuração apertada e uma inédita prorrogação da votação, não logrou acalmar os ânimos, mas antes os atiçou, deixando uma nuvem de desconfiança sobre o alicerce já frágil da estabilidade política.
Os fatos, em sua frieza, mostram uma disputa acirrada: Keiko Fujimori à frente com 16,9%, seguida por Rafael López Aliaga (12,5%), Jorge Nieto (11,6%) e Roberto Sánchez (10,8%), com mais de 80% das urnas apuradas. O segundo turno já está marcado para 7 de junho. Contudo, o que verdadeiramente perturba a ordem justa não são os números em si, mas as circunstâncias que os envolveram. A votação foi estendida, de forma inédita, até a segunda-feira, beneficiando mais de 50 mil eleitores, principalmente na capital. Tal medida, tomada para corrigir problemas na distribuição de material eleitoral, pode ter sido bem-intencionada, mas inevitavelmente introduziu uma fenda na percepção de uniformidade e equidade do processo.
A chefe da missão de observação eleitoral da União Europeia, Annalisa Corrado, embora tenha classificado o pleito como o mais complexo da história do país e reconhecido a existência de “problemas sérios”, afirmou categoricamente não ter encontrado “evidências objetivas que sustentem a narrativa de que houve fraude”. Este é um dado importante e deve ser recebido com a seriedade que lhe é devida. Todavia, a ausência de prova cabal de fraude intencional não anula a existência dos “problemas sérios” nem a erosão da confiança popular. A veracidade de um processo eleitoral não se esgota na ausência de dolo, mas se afirma na percepção pública da integridade, na garantia de que cada voto foi colhido sob as mesmas condições e fiscalizado com o mesmo rigor.
Aqui, ressoa o ensinamento de Pio XII, que distingue o “povo” da “massa”. O povo é um corpo social organizado, capaz de participar conscientemente na vida política, de exercer sua soberania de forma responsável. A massa, por outro lado, é um aglomerado informe, passível de manipulação, de desconfiança generalizada. Quando um processo eleitoral, por falhas logísticas ou procedimentais, lança sombras sobre sua própria lisura, ele transforma o povo em massa desconfiada, minando a legitimidade percebida das instituições. O direito ao voto, pilar da liberdade ordenada defendida por Leão XIII, exige não apenas a possibilidade de exercê-lo, mas a certeza de que seu exercício foi integralmente justo.
Os protestos em Lima, exigindo novas eleições, não podem ser sumariamente descartados como a mera insatisfação de perdedores ou o clamor de ideólogos. São um sintoma de que a confiança pública, esse cimento invisível da vida comum, foi abalada. A complexidade de gerir 35 candidaturas, os problemas na distribuição de material, a extensão da votação — tudo isso, somado, compõe um quadro que, embora não seja de fraude explícita, exige uma resposta à altura da gravidade dos “problemas sérios” apontados. O Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) e as autoridades têm o dever, por justiça, de detalhar com clareza os planos para garantir a segurança e a integridade de todas as etapas do segundo turno, restaurando a necessária fé no sistema.
A verdadeira força de uma democracia reside não na retórica da impecabilidade, mas na veracidade de seus processos e na justiça de sua execução. Sem a clareza da verdade e a firmeza da justiça, o alicerce sobre o qual se edifica qualquer governo justo permanece incerto e o futuro da nação, à mercê da descrença.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.