A argamassa que une os tijolos de uma nação não é apenas a força da lei, mas a reputação de quem a representa e o discernimento de quem os elege. No Texas, a recente primária republicana para o Senado jogou uma luz forte sobre a consistência desse alicerce. Ken Paxton, um procurador-geral com um histórico de impeachment pela Câmara do estado, indiciamento por fraude criminosa e denúncias ao FBI por seus próprios assessores, conquistou a nomeação do partido, impulsionado decisivamente pelo endosso do ex-presidente Donald Trump. A derrota de John Cornyn, um senador veterano de quatro mandatos, por um candidato com tal bagagem levanta uma questão essencial sobre a saúde moral da res publica.
Não se trata de reduzir a complexidade eleitoral a um simples reflexo do “poder de Trump”. Há, de fato, um legítimo descontentamento com o establishment e uma busca por figuras que se posicionem como outsiders. Contudo, o que se manifesta neste resultado é uma assimetria preocupante: a lealdade a uma figura carismática e a um projeto político específico parece ter eclipsado, para uma parcela significativa do eleitorado, as exigências de probidade e veracidade que se esperam de um servidor público. As preocupações com a integridade do candidato, que seriam o pilar de qualquer debate sério, foram relegadas a um segundo plano, como se a controvérsia fosse uma credencial de coragem contra um “sistema” a ser combatido.
A Doutrina Social da Igreja, fundada na Lei Natural, sempre insistiu que a liberdade, inclusive a política, deve ser ordenada ao bem. Para Leão XIII, a liberdade ordenada é aquela que conduz à justiça e à paz. Quando a liberdade de voto se desvincula da busca por um governo honesto e íntegro, ela pode facilmente se converter em licença para o mal. Pio XII, ao distinguir “povo” de “massa”, alertava para o risco de uma sociedade onde as decisões são tomadas por impulso ou por adesão cega, sem o juízo ponderado e a responsabilidade que caracterizam um eleitorado maduro e consciente do destino comum. O voto, longe de ser um mero ato de preferência, é um ato moral que deve visar à elevação dos melhores e mais aptos ao serviço do Estado, não à validação de quem se esquiva das responsabilidades éticas mais básicas.
O paradoxo é gritante: numa era em que se exige transparência radical de empresas, de escolas e até do cidadão comum, há uma surpreendente tolerância pela opacidade e pelas acusações graves quando o alvo é um líder político alinhado à sua própria tribo. Chesterton, com sua perspicácia para a sanidade contra a loucura lógica das ideologias, talvez apontasse a estranha cegueira que acomete aqueles que, em nome de um ideal, aceitam o que de outro modo condenariam veementemente. A ideia de que um candidato com indiciamentos e um impeachment pode ser o “porta-estandarte” de um partido que se arroga a defesa da lei e da ordem é uma contradição que corrói a fibra moral da política.
Para o Partido Republicano, as consequências são palpáveis e já geram apreensão em Washington. Como conciliar a necessidade de manter a maioria no Senado com o apoio a um candidato que será, inevitavelmente, alvo de pesados ataques democráticos sobre sua ética? Como manter a credibilidade de um discurso sobre a retidão e a integridade enquanto se eleva um homem com um histórico tão controverso? A resposta não está em fabricar desculpas, mas em confrontar a realidade de que a política não pode subsistir sem um mínimo de veracidade e justiça nas condutas de seus protagonistas. A aposta de que o eleitorado texano, profundamente conservador, ignorará as acusações em favor da lealdade partidária pode se provar uma conta alta demais para a república, mesmo em um estado com longa tradição republicana.
A vantagem de campanha do candidato democrata, James Talarico, e a indicação de que a disputa pode estar tecnicamente empatada, mostram que as nuvens de desconfiança não se dissipam tão facilmente. A política, para ser virtuosa, exige dos eleitores uma disposição para ir além das paixões momentâneas e das lealdades estéreis, buscando a justiça que se deve ao bem da cidade. A eleição de um político não é um endosso irrestrito de sua conduta passada, mas uma confiança no seu futuro serviço. Quando essa confiança é minada por um passado opaco, o custo recai sobre todos, corroendo a autoridade moral e a legitimidade das instituições.
A integridade de um povo se mede não apenas pelas leis que promulga, mas pelos homens que eleva à tribuna pública.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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