A vida política, quando se afasta de seu propósito original de buscar a ordem e a justiça, degenera em um jogo de sombras e espelhos, onde o que é dito contradiz o que é feito, e as alianças nascem não de princípios, mas de conveniências. O que se desenrola na Paraíba, com suas disputas e alinhamentos movediços, é um triste laboratório não de inovação democrática, mas da corrosão de seus pilares, um microcosmo da crise que aflige a ordem moral pública de nosso tempo.
Na Campina Grande, por exemplo, a tensão entre o Executivo municipal e a Câmara não é mera quizila parlamentar, mas um alerta sobre a legalidade e a soberania do Legislativo. Acusações de medidas provisórias “não previstas” na Lei Orgânica municipal, com a alegação de celeridade, precisam de resposta não apenas política, mas substancialmente jurídica. A autonomia do poder local, embora vital para a subsidiariedade, não pode servir de pretexto para o atropelo das leis que garantem a justiça na administração e a participação legítima dos representantes do povo. Pois onde o arcabouço legal se torna maleável demais à vontade de um, desfaz-se a fôrma da reta razão que deve guiar a cidade.
Essa mesma fragilidade se manifesta na crise de confiança que atinge o Poder Judiciário, como bem salientou a Ministra Carmen Lúcia. Quando a legitimidade da mais alta corte é posta em xeque, não se trata de uma crítica pontual, mas de um sintoma de um mal-estar profundo que ameaça a própria estabilidade da ordem. A tentativa legislativa de intervir nas penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, sob o manto de uma “crise institucional”, mostra quão tênue se tornou a linha entre a autonomia dos poderes e a instrumentalização da lei para fins políticos. A veracidade exige que se reconheça a seriedade dos fatos e que a responsabilização por atos antidemocráticos não seja relativizada em nome de uma paz aparente que compromete a verdade e a integridade da república.
A incoerência se estende às alianças partidárias, onde o pragmatismo eleitoral parece ter sepultado qualquer vestígio de fidelidade ideológica ou programática. O apoio do PT-PB a um governador cuja federação é nacionalmente adversária do Presidente Lula é um exemplo gritante. Senador Veneziano Vital não erra ao apontar o “paradoxo” e a “contradição”. Não há paradoxo mais cruel do que a lógica que, em nome de um pretenso pragmatismo, destrói a própria coerência do corpo político, fazendo da instabilidade um método. Chesterton, em sua lucidez, talvez risse da loucura lógica que vê a virtude na ausência de convicção, mas nós, por dever, devemos lamentar a erosão do debate público.
Essa dança de cadeiras sem princípio, onde projetos individuais e locais se sobrepõem à disciplina partidária e à coerência nacional, confunde o eleitor e despolitiza o debate. A “liberação do voto” para presidente por um pré-candidato a governador, embora possa ser vista como estratégia para angariar apoio transversal, é, no fundo, uma abdicação de posicionamento em temas cruciais, isolando o estado e o eleitor das grandes discussões que forjam o destino da nação. Cria-se, assim, uma massa amorfa de conveniência, onde a noção de povo, com suas identidades e propósitos claros, se dilui na fluidez dos interesses momentâneos, minando o que Pio XII chamava de “povo versus massa”.
É urgente que a política retome seu rumo, ancorada em princípios permanentes de justiça, subsidiariedade e honestidade. A realeza social de Cristo exige que as instituições reflitam uma ordem moral que transcenda o jogo de poder, buscando o bem da cidade e a dignidade de cada pessoa. Não se trata de uma utopia ideológica, mas da exigência prática de uma vida em comum que seja verdadeira, justa e digna.
A força de uma república não se mede pela maleabilidade de seus compromissos, mas pela inabalável firmeza de suas convicções morais e pela clareza de suas instituições. Sem isso, o que resta é um castelo de areia, à mercê da próxima maré.
Fonte original: Paraíba Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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