A memória da terra, para um povo, é mais que registro geográfico; é a pele da alma, o alicerce da identidade, o arquivo vivo da própria existência. Quando essa memória é rasgada por massacres, por vilarejos reduzidos a escombros e por gentes expulsas de suas casas, o ferimento não é apenas físico, mas atinge a própria ordem moral que sustenta a vida em sociedade. Os relatos das operações militares e das milícias sionistas na Palestina e Líbano, que culminaram em massacres como os de Kafr Qasim, Qibya, Saasa, Ein al-Zeitun, Abu Chucha, Safsaf e al-Dawayima, não são meros incidentes; são capítulos de uma tragédia que clama por justiça e veracidade.
Não é possível simular neutralidade ante o extermínio de 49 palestinos em Kafr Qasim, incluindo mulheres e crianças, em pleno toque de recolher, com ordens explícitas para “não ter sentimentalismo e não querer prisões”. Nem se pode relativizar a morte de mais de 69 palestinos, dois terços mulheres e crianças, em Qibya, em um ataque de retaliação planejado por altos comandos. A repetição desses atos – o fuzilamento de dezenas de homens em Ein al-Zeitun, a brutalidade em Abu Chucha com estupros e execuções, o terror infligido em Safsaf, e as centenas de vidas ceifadas em al-Dawayima, onde bebês tiveram seus crânios abertos e mulheres foram estupradas e queimadas vivas – configura um padrão de violação grave da dignidade da pessoa humana e do direito natural. Tais atos, ordenados ou tolerados, não podem ser justificados por pretexto algum.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada em Leão XIII e Pio XII, ensina que a família é anterior ao Estado e que a propriedade tem uma função social, não podendo ser confiscada arbitrariamente. A expulsão de mais de 711 mil árabes na Nakba e a desapropriação sistemática de terras palestinas, culminando em incidentes como o Dia da Terra, revelam uma sistemática “limpeza étnica” – uma ação deliberada para remover uma população de seu território. A ordem de Ben Gurion para “continuar a aterrorizar as áreas rurais” para “fazer os árabes fugirem”, ou a diretriz de Yagael Yadin para incluir “guerra psicológica e ‘tratamento’ dos cidadãos como parte integrante da operação”, expõe a intencionalidade por trás de grande parte dessa violência, visando o deslocamento forçado de comunidades inteiras. A sanidade, como diria Chesterton, exige reconhecer a loucura lógica de uma ideologia que pretende construir ordem através do caos deliberado e da aniquilação do próximo.
A veracidade histórica exige que se reconheçam esses fatos brutais, mesmo que a retórica ideológica que os acompanha por vezes peque por generalização ou unilateralidade excessiva. Criticar a linguagem “militante” de uma fonte não significa negar a realidade do sofrimento documentado. As evidências de massacres, estupros, execuções sumárias e destruição de vilarejos são avassaladoras. A impunidade dos comandantes e a leniência dos tribunais para os perpetradores de crimes graves, como visto no caso de Kafr Qasim, onde os envolvidos foram perdoados e até promovidos, são um escândalo para a consciência moral e um obstáculo intransponível para qualquer paz duradoura. A justiça, para ser real, exige responsabilidade, reparação e o reconhecimento pleno da verdade.
Um Estado que busca sua segurança através do terror e da expulsão de outros não pode erigir uma ordem moral pública sólida. Pio XII advertiu contra a redução do “povo” a uma “massa”, onde indivíduos e comunidades perdem sua dignidade intrínseca e se tornam objetos descartáveis de um projeto político. As tragédias da Palestina mostram o que acontece quando essa distinção é obliterada, e a vida humana é instrumentalizada sem peso moral. A verdadeira segurança, a paz genuína, não nasce do silêncio imposto sobre o sangue ou da negação da memória ferida, mas da coragem de olhar para o passado com honestidade e de buscar a reparação do que foi inegavelmente violado.
Não é aceitável que a busca por uma nação se traduza na desfiguração de outra. A coabitação justa e a paz no Oriente Médio só serão possíveis quando as raízes dos povos forem respeitadas e a verdade de seus sofrimentos for plenamente reconhecida, sem floreios ideológicos de um lado ou justificativas cínicas do outro. A tarefa da justiça é reconstruir o que foi quebrado, começando pela firme disposição de nomear o mal pelo que ele é.
A herança da dor exige não uma vingança perpetuada, mas uma memória honrada e a edificação de um futuro onde a pedra angular da justiça não seja a do esquecimento, mas a da verdade que liberta e pacifica.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.