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Ozempic e SUS: Custo da Obesidade e Acesso à Saúde Pública

O alto custo de canetas emagrecedoras como Ozempic desafia o SUS no tratamento da obesidade. Entre eficácia individual e sustentabilidade pública, a alocação de recursos exige justiça.

🟢 Análise

A saúde, como a própria vida, tece-se num fio delicado entre a particularidade do corpo individual e a robustez do corpo social. Quando uma enfermidade, como a obesidade ou o diabetes tipo 2, atinge milhões, ela deixa de ser apenas uma questão pessoal e se torna um desafio de engenharia cívica e moral. A emergência das chamadas “canetas emagrecedoras” – medicamentos como Ozempic e Mounjaro – lança luz sobre essa tensão, prometendo alívio a muitos, mas expondo o sistema público de saúde a um dilema de proporções gigantescas. Não se trata de negar a eficácia clínica ou o sofrimento dos pacientes, mas de discernir a melhor forma de cuidar do todo sem comprometer as partes.

É inegável que a obesidade, que aflige um quarto da população adulta brasileira, e o diabetes tipo 2, que alcança mais de 10% dela, são flagelos de nossa era, portas de entrada para infartos, AVCs e diversos tipos de câncer. A médica Fernanda Lendimuth Gomes de Melo e as sociedades médicas com razão advogam por tratamentos adequados, e a limitação do SUS à cirurgia bariátrica para uma minoria é um espelho que reflete nossa insuficiência. Contudo, a solução para um problema de tamanha escala não pode ser meramente farmacológica e, menos ainda, ignorar a realidade nua e crua dos custos.

A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) não agiu por capricho ao barrar a inclusão da liraglutida e semaglutida. Sua decisão, amparada em portarias ministeriais, espelha uma prudência necessária: a de que um medicamento de altíssimo custo, para uma população tão vasta, é capaz de implodir qualquer orçamento público. O direito à saúde, pilar da Doutrina Social da Igreja, não se traduz em um acesso ilimitado a cada nova tecnologia, mas na garantia de uma estrutura equitativa e sustentável que possa atender às necessidades mais prementes e fundamentais de todos. O risco de desviar bilhões para um único tratamento, comprometendo vacinas, saúde mental ou outras terapias vitais, seria uma injustiça contra a coletividade.

Além do mais, a “pressão estética da magreza”, como aponta a própria especialista, já cria um mercado paralelo de contrabando e receitas falsas. Incorporar esses medicamentos sem um controle rigoroso e um acompanhamento multidisciplinar seria abrir as portas para o uso indevido, para a medicalização de um desejo estético e para a sobrecarga de um sistema já anêmico em infraestrutura de apoio (nutricionistas, psicólogos). São Pio XII alertava sobre a distinção entre “povo” e “massa”: o povo é consciente de seus deveres e direitos, busca o bem comum; a massa é suscetível a modismos e pressões, inclusive de consumo, desviando o foco da necessidade genuína. A saúde pública não pode ser refém da histeria midiática ou da lógica puramente de mercado.

O caminho, portanto, não é o da negação pura e simples, mas o da justiça temperada pela sabedoria. A subsidiariedade ensina que o Estado não deve sufocar a iniciativa local nem se eximir de responsabilidades que lhe cabem. Municípios podem, e alguns já fazem, buscar parcerias com laboratórios para projetos piloto controlados, negociando preços e avaliando o custo-efetividade real em populações específicas. Mais importante ainda é que a política de saúde transcenda a medicação sintomática e ataque as raízes da obesidade e do diabetes: investir maciçamente em educação alimentar, em infraestrutura urbana que estimule a atividade física e em políticas públicas que garantam o acesso a alimentos saudáveis.

Não se edifica um porto seguro para a saúde pública em meio à tempestade de demandas sem critério, nem se confia a bússola a quem busca apenas a solução mais cômoda. A verdadeira batalha contra a obesidade e o diabetes tipo 2 não se vencerá apenas com uma caneta, mas com a construção de uma sociedade que valorize a saúde integral e a vida digna em todas as suas dimensões, gerenciando seus recursos com a seriedade de quem sabe que cada escolha pode significar a vida ou a morte de outrem.

Uma sociedade não se mede pela abundância de suas promessas, mas pela sabedoria com que governa suas possibilidades.

Fonte original: RD – Jornal Repórter Diário

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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