O labirinto de negociações no Oriente Médio, com suas pistas falsas e desmentidos instantâneos, mais parece uma farsa de enganos do que a busca por uma paz real. Não há bússola que resista à névoa de informações contraditórias que turvam o cenário, nem mapa que ajude a navegar quando a própria mídia se assume parte de uma “torcida organizada”. A observação de um analista israelense de que as negociações entre Estados Unidos e Irã estão à mesma distância da espaçonave Artemis II à Terra, com a diferença de que a sonda se aproxima, é um paradoxo que revela não só a complexidade, mas a profundidade da desconexão com a realidade.
Os fatos, no entanto, gritam. O regime iraniano atravessa sua pior crise desde 1979, intensificando a repressão e as execuções de manifestantes para conter uma insatisfação popular crescente. Paralelamente, no Líbano, um Estado soberano é arrastado a conflitos contínuos pelo Hezbollah, um grupo armado que opera como estação avançada do regime iraniano, minando a autonomia e a paz dos libaneses. As negociações de cessar-fogo entre Israel e o governo libanês, sob o “braço duro dos EUA”, tentam, ainda que a fórceps, conter a escalada de violência. Estas são as duras verdades a serem confrontadas.
Contudo, a tentação de reduzir essa complexa teia a uma narrativa unilateral, onde um lado é pura vítima e o outro pura maldade, obscurece o discernimento necessário para qualquer solução duradoura. A honestidade intelectual exige reconhecer o sofrimento humano, a fragilidade da soberania libanesa e a repressão no Irã, mas também questionar a pretensão de que apenas uma leitura ideológica seja válida. Desqualificar a imprensa como “torcida organizada” é um gesto que, ao mesmo tempo em que denuncia uma falha real, pode ser usado para desacreditar qualquer perspectiva que não se alinhe à própria.
A Doutrina Social da Igreja, com a clareza de Pio XI e Pio XII, nos adverte contra a estatolatria e a massificação do povo. Tratar o Líbano meramente como um “país refém” ou “hospedeiro cancerígeno” do Irã, embora a influência do Hezbollah seja inegável e destrutiva, é negar a este povo e a este Estado sua dignidade intrínseca e sua agência, por mais limitada que seja. A abordagem de países como França e Brasil, que insistem em tratar o Líbano como um ator autônomo, não é ingenuidade diplomática, mas um esforço por respeitar a soberania nacional e os corpos intermediários que compõem sua sociedade, princípio fundamental da subsidiariedade. Desconsiderar essa autonomia é, paradoxalmente, fragilizar ainda mais a possibilidade de compromissos que o próprio Líbano possa, de fato, honrar.
O ponto é que a verdadeira paz social, segundo a ordem da justiça, não se edifica sobre a negação da realidade multifacetada. Ignorar a complexidade interna do Irã, reduzindo-o a um monólito sem fissuras, ou desvalorizar a capacidade do povo libanês de resistir e buscar seu próprio destino, é uma cegueira voluntária que impede o avanço. A loucura lógica das ideologias reside justamente nisso: na paixão por um esquema abstrato que precede e deforma o real, em vez de se curvar à sua intrincada tessitura. É preciso ver o Líbano como nação, o Irã como um povo com suas aspirações, para além das amarras de um regime opressor.
A paz, como ensina Santo Tomás de Aquino, é a tranquilidade da ordem. E não há ordem sem justiça, nem justiça sem a verdade devida a cada um, incluindo a verdade da soberania de uma nação. A falta de indícios de que as partes compreendam o preço a pagar para pôr fim ao conflito não se refere apenas ao custo militar ou econômico, mas ao preço moral de reconhecer a dignidade e a agência do outro. A negação persistente da autonomia de um Estado, por mais influenciado que esteja, não é uma estratégia para a paz, mas um fator de perpetuação da instabilidade.
A construção da paz, em sua mais exigente acepção, não reside na conveniência de uma narrativa, mas na coragem de encarar a verdade crua e na paciência de edificar sobre a rocha da justiça, reconhecendo a legitimidade da existência de cada nação, mesmo quando um hospedeiro maligno tenta roubar sua identidade.
Fonte original: Último Segundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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