O pergaminho assinado no palácio da diplomacia, prometendo trégua, tem sua tinta ainda fresca quando o estampido das bombas ecoa na fronteira, tingindo o solo de sangue. É a cena que se repete nestes dias conturbados no Oriente Médio, onde a retórica da paz caminha lado a lado com a escalada militar, e a palavra dada parece dissolver-se no ar como fumaça de explosivos. As forças americanas desferem ataques no sul do Irã, justificando-os como autodefesa para proteger suas tropas de ameaças iranianas, enquanto, em outra latitude, Marco Rubio sinaliza que Washington aceitaria um acordo provisório com Teerã, sem retirar imediatamente sua capacidade nuclear. A lógica é tortuosa, pois se negocia com uma mão enquanto se golpeia com a outra. O porta-voz iraniano, Esmaeil Baghaei, afirma que há “entendimentos”, mas nega a iminência de qualquer pacto definitivo, deixando claro o fio tênue que separa a mesa de negociação do campo de batalha.
No Líbano, a contradição é ainda mais crua. Uma trégua entre Israel e o Hezbollah, em vigor desde 17 de abril, foi dinamitada pela intensificação feroz dos ataques israelenses. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu anuncia que buscará “esmagar” o Hezbollah, e os números, frios em sua brutalidade, confirmam a violência: o Exército de Israel atacou mais de 70 posições e infraestruturas do Hezbollah com cerca de 85 munições em um único dia. O balanço de mortes no Líbano desde o início da guerra, em 2 de março, ultrapassa as 3.185 almas, com dezenas de novas vítimas registradas em 24 horas. Famílias foram alertadas para evacuar mais de dez localidades, e o sangue inocente continua a irrigar uma terra já exausta. O Hezbollah, por sua vez, revida, alegando “violação do cessar-fogo”, e o ciclo vicioso de dor se completa.
Argumentar que essas ofensivas militares são “movimentos calculados para alavancagem negocial”, um “processo doloroso, mas necessário para alcançar uma paz duradoura sob novos termos”, é desconsiderar a essência da verdade e da justiça. Uma paz construída sobre a ambiguidade e o sangue não é paz; é uma trégua instrumentalizada, uma pausa estratégica que serve apenas para rearranjar peças no tabuleiro enquanto a vida de homens, mulheres e crianças se esvai. A credibilidade de qualquer acordo internacional é seriamente abalada quando as partes signatárias são as primeiras a rasgar o pacto com ações de força. É o naufrágio da palavra, a desvalorização do compromisso, a desfiguração da confiança que deveria ser o alicerce de qualquer ordem justa.
O que se testemunha é uma corrosão da veracidade nas relações internacionais e uma flagrante violação da justiça para com os mais vulneráveis. Não há ordem moral pública onde os acordos são meros papéis dobráveis a cada conveniência tática. A “autodefesa” não pode ser um guarda-chuva retórico para ofensivas que se intensificam sob o manto de uma trégua. A vida humana não é uma moeda de troca em jogos de poder, nem o sofrimento dos povos pode ser contabilizado como mero custo de uma estratégia de pressão. Tal desrespeito à dignidade intrínseca da pessoa, à santidade da vida e à inviolabilidade dos pactos mínimos de civilidade converte os cidadãos de um “povo”, com direitos e voz, em uma “massa” passível de ser manejada ao sabor de manobras geopolíticas.
A promessa de um acordo de paz, que nem retira imediatamente a capacidade nuclear do Irã, revela que os termos buscados não são a desnuclearização plena ou a estabilidade genuína, mas um arranjo de poder que mantém a tensão latente. Esse é um jogo perigoso que flerta com a proliferação e aumenta o risco de uma escalada descontrolada. O preço da “pressão máxima” tem sido pago, em grande parte, pelas populações civis, que não têm como se defender da ambiguidade diplomática nem do poderio militar que se diz em busca da paz, mas que ceifa vidas em nome de uma “nova ordem”.
A verdadeira justiça internacional, aquela que São Tomás de Aquino nos ensina a buscar, exige que os meios sejam condizentes com os fins. Não se pode alcançar a paz duradoura pela via da hipocrisia e da violência velada. É imperativo restaurar a seriedade dos compromissos, a transparência dos objetivos e a proporcionalidade das ações. A linguagem dos acordos não pode ser uma capa para a linguagem das bombas. O destino comum da região exige que os Estados-nações, com suas autoridades legítimas, ajam com a reta razão, que distingue entre o justo e o injusto, entre a defesa legítima e a agressão disfarçada.
A paz, como a verdade, não pode ser uma mercadoria a ser negociada com duplos pesos e duplas medidas. Ela é um fruto da ordem e da concórdia, um bem que se edifica sobre a rocha da honestidade e da justiça, não sobre as areias movediças da instrumentalização e da dissimulação. Quando a tinta do acordo ainda não secou e o estampido da bomba já ecoa, o que se constrói não é a paz, mas o labirinto da desconfiança.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.