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Retórica do Irã: Marandi e a Ideologia que Distorce Fatos

Mohammad Marandi, porta-voz iraniano, distorce a realidade com retórica de vitimização. Analisamos como a ideologia justifica intransigência nuclear, repressão interna e desqualifica a diplomacia. Conflito real entre verdade e poder.

🟢 Análise

O nevoeiro denso da ideologia tem a estranha capacidade de distorcer o mapa da realidade, transformando nações em espelhos de vitimização, onde a culpa pelos próprios erros é sempre projetada no inimigo exterior. É neste terreno turvo que se move a retórica de Mohammad Marandi, porta-voz oficioso de uma ala linha-dura iraniana. Suas declarações, carregadas de uma inflexibilidade quase pétrea sobre o programa nuclear e o controle do Estreito de Ormuz, são mais do que meras opiniões; são a voz de um regime que, ao mesmo tempo em que se autodeclara vítima de “bárbaros”, molda uma política externa de intransigência e uma política interna de cerceamento das liberdades.

Marandi desenha um Irã em luta existencial, fustigado por duas guerras não provocadas em um ano, atacado em suas escolas por mísseis americanos e ameaçado de extermínio por regimes “implacáveis” e “brutais”. A narrativa é simples: não há espaço para recuo, apenas para resistência infinita. O sofrimento do povo, a inflação que supera os 100% nos alimentos, as sanções que estrangulam a economia – tudo é atribuído à hostilidade externa. A diplomacia, para ele, é uma farsa, e países como o Brasil, que buscam mediação, são meros espectadores “fracos”, sem voz ou agência real no palco das grandes potências.

Não se pode negar que o Irã, como nação, sofreu e sofre pressões externas significativas e possui legítimas preocupações de segurança. A história da região é complexa e cheia de intervenções estrangeiras que deixaram cicatrizes profundas. As sanções econômicas, quando indiscriminadas, de fato pesam sobre a população comum. Contudo, a resistência, para ser virtuosa, não pode ser cega ou servir de pretexto para o autocratismo. A retórica de Marandi, ao justificar a intransigência em relação ao enriquecimento de urânio e ao controle de rotas marítimas vitais, eleva o risco de uma escalada militar que teria consequências desastrosas não apenas para o povo iraniano, mas para a estabilidade global. Aqui, a veracidade encontra seu maior desafio: a distinção entre a defesa legítima de um povo e a instrumentalização da dor para fins ideológicos.

É justamente neste ponto que a narrativa de Marandi se desfaz em contradições. Enquanto ele proclama “muito mais liberdade de imprensa” no Irã do que no Ocidente, a realidade factual — relatada inclusive na mesma série de reportagens que o entrevistou — aponta para 83 dias de censura à internet e crescente repressão a dissidentes. Afirmações vagas sobre a “ocupação da Venezuela” ou a capacidade de “invasão de Cuba” pelos EUA são apresentadas como fatos consumados, sem base ou contextualização, servindo apenas para reforçar a imagem de um Ocidente universalmente maligno. Tal discurso transforma o povo, na concepção de Pio XII, em massa: uma coletividade sem agência própria, coagida a se conformar a uma narrativa única para sobreviver, em vez de uma comunidade livre e capaz de discernir.

A Doutrina Social da Igreja, ao contrário, sustenta que a justiça e a paz duradoura se constroem sobre a verdade e a dignidade inalienável da pessoa humana. A liberdade ordenada, como ensinava Leão XIII, não é a anarquia ou a submissão, mas a capacidade de agir conforme a reta razão, sem constrições ideológicas ou estatais que esmaguem a consciência individual e os corpos intermediários da sociedade. A obsessão por um poder estatal que se coloca acima de todas as coisas, a “estatolatria” tão criticada por Pio XI, é a raiz de onde brotam as justificativas para a censura e a repressão interna, sempre sob o pretexto de uma ameaça existencial. A caridade, que ordena nosso amor e atenção aos mais vulneráveis, exige que não fechemos os olhos ao sofrimento do povo iraniano, que arca com o custo de uma política que não pode ser questionada abertamente.

Nesse cenário, a desqualificação de esforços diplomáticos, mesmo os vindos de nações sem poderio militar para impor sua vontade, é um erro de julgamento. O que Marandi e a retórica linha-dura interpretam como “fraqueza” do Brasil – sua incapacidade de invadir Cuba ou Venezuela – é, na verdade, um reconhecimento do valor da diplomacia multilateral e do direito de cada nação à sua soberania. A sanidade, como diria Chesterton, consiste em ver a realidade tal como ela é, e não como uma projeção ideológica. A grandeza de uma nação não se mede apenas pela força militar, mas pela capacidade de dialogar, de respeitar a verdade e de construir pontes, mesmo em meio às tensões mais acirradas.

A resistência, quando se converte em autoengano e em pretexto para a supressão da liberdade e da verdade, deixa de ser uma virtude e se torna uma prisão. O caminho para a verdadeira paz e a estabilidade para o povo iraniano não passa pela recusa sistemática de qualquer diálogo ou pela criação de “linhas vermelhas” intransponíveis, mas pelo restabelecimento da confiança, pela transparência de suas intenções e pelo reconhecimento da dignidade de seus próprios cidadãos. Aquele que julga o mundo pelos olhos do cerco permanente e da conspiração universal se condena à guerra infindável, não apenas com seus inimigos declarados, mas com a própria verdade.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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