Quando a balança que pesa as palavras e os atos de nações se descalibra, a imagem da paz torna-se uma ilusão frágil, e a verdade, a primeira vítima. Nesta segunda-feira, enquanto negociadores iranianos chegavam a Doha para conversas cruciais destinadas a encerrar um conflito, as forças americanas atacavam bases de mísseis no sul do Irã, justificando a ação como “autodefesa” contra supostas ameaças. Paralelamente, em uma exibição de força calculada, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, jurava “esmagar” o Hezbollah no Líbano, intensificando operações após novos ataques. No mesmo tabuleiro, o ex-presidente Donald Trump endurecia as condições para um acordo, exigindo a entrega de urânio enriquecido e a adesão de várias nações árabes a acordos de paz questionáveis.
Há um abismo entre o que se diz e o que se faz, uma falha tectônica que não se resume a uma mera descoordenação política, mas aponta para uma crise profunda de veracidade e justiça no cenário internacional. De um lado, a retórica diplomática que fala em “avanços em negociações” e a busca por um cessar-fogo; de outro, a escalada militar e a imposição de condições maximalistas que parecem desenhadas para o fracasso. Não se pode pregar a paz com uma mão enquanto se empunha a espada com a outra, sem antes expor a causa justa, a necessidade última e a proporcionalidade dos meios. Como ensinava Pio XII, a comunicação responsável é a base de uma ordem moral pública, e a verdade não pode ser manipulada para justificar ações que se contradizem. O povo, e não a massa indiferente, tem o direito de conhecer a verdade para julgar, e não ser apenas objeto passivo de narrativas contraditórias.
A legitimidade de qualquer ação militar, mesmo sob o manto da “autodefesa”, depende de uma rigorosa avaliação dos fatos e das intenções. As alegações de “ameaças iranianas” ou de “embarcações que tentavam instalar minas” requerem transparência e evidências verificáveis, não apenas a palavra de um porta-voz. Sem isso, a justificativa torna-se opaca, e a ação militar, arbitrária, ferindo o princípio da liberdade ordenada que Leão XIII defendia para as nações. A paz não é a ausência de guerra a qualquer custo, mas o fruto da justiça e da ordem. Quando a veracidade é sacrificada no altar da estratégia, a confiança se desintegra e o caminho para a paz genuína é bloqueado por cada mentira não desvelada.
As exigências de Donald Trump, por sua vez, representam uma forma de barganha política que, embora possa ser apresentada como “estratégia robusta”, ignora a complexidade intrínseca do Oriente Médio. A imposição da assinatura de acordos como os de Abraão, que historicamente não abordam a questão palestina de forma decisiva, como condição para um acordo mais amplo, demonstra uma desconexão com a realidade regional. A paz duradoura não se constrói por imposição de cima para baixo, mas pela paciente construção de pontes de justiça entre as partes, pelo reconhecimento mútuo e pela busca do bem comum de todos os povos envolvidos, incluindo os que foram historicamente negligenciados.
Não é, portanto, um mero descompasso diplomático. É a manifestação de uma profunda crise moral onde a veracidade é diluída na retórica estratégica e a justiça é submetida ao cálculo de poder. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, fala em um acordo “ainda hoje”, enquanto as ações militares e as ameaças de escalada parecem operar em uma dimensão paralela. Essa dissociação, esta esquizofrenia de conduta, impede que a esperança floresça. Chesterton, com sua perspicácia, diria que a sanidade não está em ver as coisas de dois jeitos, mas em ver as coisas como elas realmente são. E a realidade, hoje, é que a promessa de paz é constantemente dinamitada pelos que, paradoxalmente, dizem buscá-la.
A verdadeira paz não é um artifício diplomático ou o silêncio imposto pela força. Ela é a tranquilidade da ordem, fruto da justiça e da veracidade que habitam os corações dos homens e as relações entre as nações. Enquanto as ações no campo de batalha e as palavras nas mesas de negociação falarem línguas distintas, o Oriente Médio continuará a ser um palco onde a promessa de paz é encenada, mas nunca efetivada, pois lhe falta a essência da boa-fé. O clamor por um “caminho irreversível até um Estado palestino” vindo de uma fonte saudita sublinha que a verdade e a justiça, ainda que silenciadas pela pressão, persistem como exigências. Não haverá paz duradoura onde a palavra perde seu peso e a verdade é tratada como mera moeda de troca.
Fonte original: Correio do povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.