A política, em sua mais nobre vocação, é a arte de ordenar a vida comum para o bem de todos, sob a luz da justiça. Não se trata de um mero tabuleiro de xadrez onde o xeque-mate é a única medida de sucesso, mas de um campo de cultivo onde as sementes da verdade e da virtude devem ser semeadas para que floresça uma civilização duradoura. Nesse cenário, as declarações de Marcos Pereira, presidente do Republicanos, sobre o jogo eleitoral e o intrincado balé dos poderes, oferecem um espelho à alma pública brasileira, revelando tensões entre o ideal e o contingente.
É legítima, e mesmo necessária, a preocupação que o líder do Republicanos manifesta quanto à judicialização excessiva da política e à potencial politização do Judiciário. A harmonia e a independência entre os poderes, inscritas na Constituição, não são meros adereços jurídicos, mas pilares da ordem justa. Quando partidos, ao perderem na arena política, correm à Corte para reverter decisões já tomadas, abrem-se as portas para a desfiguração dos freios e contrapesos que Pio XI, em sua crítica à estatolatria, tanto defendeu. O ativismo judicial, por vezes, ou a inércia do Parlamento, por outras, pode desvirtuar a finalidade de cada instância, distorcendo a subsidiariedade que exige o fortalecimento dos corpos intermediários e das esferas mais próximas do cidadão.
Contudo, é preciso aplicar a mesma medida de veracidade e justiça ao analisar a coerência da ação política. O Republicanos se apresenta como um partido de centro-direita, pragmático, que busca a neutralidade ou um apoio condicional. Mas essa suposta neutralidade, que permite ter um ministro no governo Lula e atuar como independente na Câmara, ao mesmo tempo em que os senadores agem na oposição e o presidente do partido cobra “gestos” do campo bolsonarista para um possível apoio futuro, revela uma plasticidade que, em vez de pragmatismo, pode resvalar no oportunismo. A política, para ser virtuosa, não pode ser um leilão de conveniências. Se o “Centrão”, nas palavras de Pereira, é uma “ficção criada pela imprensa”, resta-nos indagar, com a acidez de Chesterton que desvela paradoxos, qual é a realidade que se esconde sob o manto de uma aliança tão elástica e seletiva. A sanidade política não reside em negar a existência de dinâmicas óbvias, mas em lhes dar nome e julgar sua moralidade.
O ensinamento católico sobre a vida pública, especialmente aquele articulado por Leão XIII sobre a liberdade ordenada e a família anterior ao Estado, ou por Pio XII sobre a distinção entre povo e massa, exige que a ação política seja ancorada em princípios permanentes, e não em meros arranjos táticos. A polarização, ainda que um fato do cenário eleitoral, não pode ser uma desculpa para a ausência de um projeto de país que transcenda as disputas imediatas. Quando se critica a ingerência estatal na economia, como faz Marcos Pereira, evocando a experiência de Dilma e do próprio Lula, mas se flutua na aprovação de medidas com impacto social direto, como a PEC do 6×1, sob a alegação de “má compreensão” da fala, a veracidade do discurso é posta à prova. Os micro e pequenos empresários, que formam a espinha dorsal de nossa economia e geram a maioria dos empregos formais, não podem ser reféns de ambiguidades retóricas; sua subsistência exige clareza e compromisso.
A exigência de “autocontenção” aos magistrados, vinda de um jurista que atuou junto ao STF em favor da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, demonstra a dificuldade, mas também a urgência, de que a crítica institucional não se torne uma arma de dois gumes, usada conforme a conveniência. A justiça na atuação pública pede que os princípios defendidos sejam aplicados uniformemente, sem exceções que beneficiem este ou aquele ator. A reforma tributária, mencionada como um dos poucos feitos relevantes do governo, ilustra que a construção de algo duradouro exige tempo, diálogo e, sobretudo, uma base de princípios compartilhados, não apenas a soma de interesses voláteis.
A dívida do político não é apenas com sua base, mas com a verdade que estrutura a pólis e a justiça que lhe dá vida. Sem elas, o pragmatismo se torna farsa, e a harmonia institucional, um arranjo temporário à espera do próximo leilão.
Fonte original: VEJA
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados
PGR acusa Eduardo Bolsonaro: Coação judicial e soberania