A vida política, como a lavoura, exige a presença do semeador, o discernimento do agricultor e o respeito à terra que nutre. Mas o que fazer quando a promessa de colheita vem de uma voz distante, confinada, cuja vontade é transmitida por intermediários e interpretada à luz de disputas alheias? A expectativa de uma “lista” de candidatos a ser emanada pelo ex-presidente Bolsonaro, de sua reclusão, ilustra um fenômeno que corrói a fibra da participação cívica e distorce o papel das associações políticas em uma república.
Os fatos são claros: o ex-presidente, inelegível e em prisão domiciliar, mantém um capital político que seus aliados desejam capitalizar. A ideia de uma lista para o Senado, visando arbitrar conflitos internos no PL e orientar o eleitorado, paira como uma sombra sobre o processo de formação das candidaturas. Seus filhos e a cúpula do partido disputam quem melhor interpreta ou projeta a “vontade” do líder ausente, usando bilhetes e conversas mediadas para justificar apoios e desavenças em estados como Santa Catarina, São Paulo, Ceará e Mato Grosso do Sul.
Há, sim, uma preocupação legítima na forma como a influência de figuras populares, mesmo restritas pela lei, pode persistir e afetar o jogo democrático. A autonomia dos partidos, concebidos como corpos intermediários que articulam a vontade popular de baixo para cima, não deveria ser tão frágil a ponto de ceder à imposição de uma única pessoa, ainda que carismática. Questiona-se a capacidade dessas estruturas de forjar suas próprias lideranças e programas, e não se limitar a ser um eco de um endosso pessoal. O eleitorado, por sua vez, tem seu discernimento testado, ao se ver diante de candidatos que buscam legitimação por proximidade, e não por mérito ou coerência com uma plataforma partidária genuína.
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Nesse cenário, a virtude da veracidade é a bússola que precisamos para navegar. Não se trata de uma “lista” emanada de uma autoridade legítima exercida em plena liberdade, mas de uma projeção de poder, mediada e instrumentalizada, por aqueles que detêm o acesso ao ex-presidente. A influência, neste caso, não é um comando direto e autônomo, mas um reflexo da dependência estratégica de um partido que busca em um líder ausente a coesão que não consegue construir organicamente. A assimetria de poder é evidente: o valor da “lista” reside menos na sua origem imperativa e mais na sua função de legitimar escolhas já tomadas ou de arbitrar disputas que o próprio partido não consegue resolver. É a imagem do líder, mais do que seu juízo político ativo, que é posta em jogo.
A justiça exige que os corpos intermediários da sociedade, como os partidos políticos, cumpram sua função própria, sem que sua vitalidade seja esmagada pela personalização excessiva do poder. Conforme ensinado por Pio XI sobre a subsidiariedade e por Leão XIII sobre as associações livres, a sociedade não é uma massa amorfa a ser modelada por um centro, mas uma rede de organismos vivos que florescem quando lhes é permitido agir por conta própria. Reduzir as negociações e alianças partidárias a uma busca pela “bênção” de uma figura, mesmo que icônica, é subverter a ordem dos bens e fragilizar a autonomia que é devida à vida política local e regional. Transformar um partido em mero receptáculo de um “comando” externo é um empobrecimento da deliberação política e uma concessão à massificação em detrimento do protagonismo do povo.
A verdadeira questão não é se Bolsonaro consegue influenciar, mas como essa influência se manifesta e que tipo de vida política ela engendra. Uma “lista” que surge sob tais condições é, na verdade, um sintoma de uma liderança fragilizada pelas próprias circunstâncias, e um espelho da dificuldade dos partidos em gerar consenso e direção de forma autônoma. A coesão obtida por um endosso remoto é frágil e não constrói a solidez necessária para o bem da cidade.
Em última análise, essa “lista” é menos uma estratégia de governo do que uma tática de sobrevivência política, um esforço de manter a relevância de um líder impedido e, ao mesmo tempo, de fornecer um pretexto para o PL resolver suas tensões internas. O juízo final é que a vida política, para ser reta e fecunda, não pode ser dirigida por bilhetes e pressupostos. Ela exige a presença do estadista, o discernimento dos cidadãos e a autonomia das associações, a fim de que as candidaturas não brotem de uma imposição pessoal, mas da livre deliberação e da busca honesta pelo bem de todos. A política, para ser virtuosa, precisa de jardineiros que cultivam a terra com as próprias mãos, e não de sombras que comandam à distância.
Fonte original: Notícias ao Minuto Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.