A notícia de que jovens LGBTQIA+ no Brasil têm o dobro de risco de usar drogas e começam o consumo mais cedo, com mulheres bissexuais apresentando taxas ainda mais elevadas, não pode ser recebida com indiferença. Os números são alarmantes: chances 66% maiores para tabaco, 94% para maconha e 2,28 vezes mais para cocaína em comparação com seus pares heterossexuais. É um grito de dor que exige não apenas atenção, mas uma análise que penetre para além das primeiras camadas de explicação. Reconhecer o sofrimento é um imperativo da caridade; compreendê-lo em sua profundidade e complexidade é um dever da veracidade.
Os especialistas apontam para o “estresse de minorias” – a discriminação, o preconceito, o medo da violência e a dificuldade de aceitação – como fator preponderante. Há uma preocupação legítima com o bullying, a saúde mental precária (ansiedade, depressão, TEPT) e a chamada “penalidade bissexual”, que impõe um fardo psicológico adicional a mulheres bissexuais. De fato, a dignidade da pessoa humana exige que qualquer forma de discriminação injusta seja condenada e combatida, e que ambientes de acolhimento sejam oferecidos a todos, especialmente aos mais vulneráveis. Não se pode fechar os olhos ao sofrimento real.
Contudo, a Doutrina Social da Igreja, informada pela reta razão de São Tomás de Aquino, alerta-nos para a tentação do reducionismo causal. A vida humana, em sua rica tapeçaria, é sempre multifatorial. Reduzir a complexa etiologia do uso de substâncias – que envolve predisposições genéticas, traumas diversos, fragilidades socioeconômicas, disfunções familiares e a comorbidade de outros transtornos mentais – a uma única causa identificada primariamente pela identidade sexual é simplificar em demasia uma realidade que clama por mais. É preciso inquirir se o “estresse de minorias” é a causa raiz exclusiva ou dominante ou apenas um fator que interage numa rede de vulnerabilidades. A fé nos ensina que a criatura é um composto de corpo e alma, de herança e liberdade, de ambiente e escolha.
Ao superestimar a identidade como o fator explicativo central, corre-se o risco de obscurecer outros determinantes de saúde e vulnerabilidade que podem ser igualmente, ou até mais, preponderantes para certos indivíduos, sejam eles LGBTQIA+ ou heterossexuais, em contextos de privação e estresse semelhantes. Uma verdadeira caridade exige que se veja o homem inteiro, e não apenas uma parcela de sua identidade. A família, como a primeira e insubstituível sociedade natural, é o alicerce fundamental para a formação da pessoa e o principal fator protetivo contra as vicissitudes da vida. Onde este pilar falha, por disfunção, ausência ou desamparo, outras vulnerabilidades se instalam, independentemente da orientação. Os fatores protetores identificados, como orgulho, apoio familiar e social, acesso à educação e cuidados de saúde, são na verdade pilares universais de bem-estar que devem ser fortalecidos para todos os jovens, e não apenas para grupos identitários específicos.
As propostas de “políticas públicas inclusivas” e “olhares diferenciados” nos serviços de saúde, embora movidas por boas intenções, devem ser examinadas com a virtude da veracidade e da prudência. É preciso perguntar se tais intervenções, ao focar intensamente na identidade, não correm o risco de, paradoxalmente, criar novas formas de categorização e estigma, em vez de promover uma inclusão genuína e não-patologizante. A verdadeira inclusão passa por tratar a todos com a dignidade que lhes é própria, como filhos de Deus, e por oferecer-lhes os meios para cultivar as virtudes da temperança e da fortaleza, indispensáveis para resistir aos vícios e superar as adversidades da vida.
O desafio de combater o uso de drogas entre jovens é uma questão complexa que exige a reconstrução de sólidos alicerces morais e sociais. Não basta tratar o sintoma do vício ou identificar um único gatilho externo. É preciso restaurar o ambiente familiar, fortalecer os corpos intermediários da sociedade, promover uma educação que forme o caráter e as virtudes, e oferecer o auxílio da graça para que cada jovem possa viver de modo ordenado e com liberdade.
O sofrimento não escolhe grupo. A caridade, sim, escolhe a verdade para curar o homem por inteiro.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.