A engrenagem do crédito, que deveria lubrificar a produção e o consumo, tornou-se no Brasil uma máquina de moer as finanças da família e as esperanças do empreendedor. Temos, invariavelmente, a segunda maior taxa real de juros do planeta, um fardo que assombra nossa economia enquanto o mundo tenta respirar. Se a Turquia nos supera nominalmente, no varejo doméstico somos campeões de extorsão: um cartão de crédito pode girar a 435,9% ao ano, uma cifra que não encontra paralelo na civilização, transformando a dívida em uma armadilha sem saída para 80,4% das famílias.
Diante de tamanha chaga, qual a narrativa oficial? A de um perigoso “excesso de demanda”, de uma população que “consome demais”, de “expectativas” que ameaçam inflacionar o país. Um diagnóstico que mal se sustenta na realidade. Enquanto nos acusam de gula, a taxa de investimento da economia brasileira (FBCF/PIB) mal alcança 17,3%, bem abaixo da média mundial de 26,2%. Onde está o superaquecimento quando a indústria opera em 82,4% de sua capacidade, um patamar considerado “normal” por quem entende do riscado? A verdade é que não se constrói um país com juros escorchantes sobre uma base produtiva que mal consegue se erguer.
A inflação, fenômeno complexo, raramente é um monstro de uma só cabeça. Falar apenas em “excesso de demanda” diante de um endividamento recorde e de uma capacidade produtiva subutilizada é desviar o olhar do real problema. Parte considerável da alta dos preços decorre da oligopolização de mercados, especialmente o de commodities, onde grandes grupos definem os preços por mecanismos que pouco têm a ver com a oferta e a demanda interna do Brasil. Ignorar essa realidade e insistir num arrocho monetário generalizado é aplicar a medicina errada para a doença errada, mas com um efeito colateral conhecido: o enriquecimento vertiginoso do setor financeiro às custas da paralisia econômica.
A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu na primazia do trabalho e da produção sobre o capital especulativo. A propriedade, inclusive a financeira, tem uma função social, não pode ser mero instrumento de acumulação rentista que asfixia a vida comum. Quando um Banco Central, em nome de uma “independência” que parece servir mais a interesses específicos do que ao povo, impõe juros tão desproporcionais, ele age contra a justiça social e a reta ordem dos bens. É uma forma de estatolatria monetária, um Leviatã financeiro que esmaga os corpos intermediários – famílias, pequenas empresas – em vez de lhes dar espaço para prosperar, violando o princípio da subsidiariedade.
O que se exige, portanto, não é uma simplória negação do problema inflacionário, mas um juízo reto e corajoso sobre suas causas e remédios. A meta de inflação, hoje, está dentro dos limites de tolerância para 2026. Manter um custo de capital tão elevado, em nome de “expectativas” que são, na prática, a agenda de poucos, é um ato de desmedida, de falta de temperança econômica que beira a desumanidade. É preciso olhar para o povo, para as famílias que se afogam em dívidas, para a indústria que não consegue investir, e não apenas para as planilhas dos bancos e as previsões de um mercado que se alimenta da escassez.
Uma nação se edifica não pela asfixia, mas pela fecundidade. A solução para a inflação duradoura passa por investimento em capacidade produtiva, pelo fortalecimento da concorrência, pela gestão estratégica de cadeias de suprimentos e pelo crédito justo. Não é com juros estratosféricos que se constrói uma economia robusta, mas com honestidade na regulação e laboriosidade na produção. A verdadeira estabilidade de preços não virá de um dogma monetário cego, mas de uma economia que serve ao homem, e não o contrário.
A balança da justiça econômica pende perigosamente, desequilibrada pela mão pesada do dinheiro fácil e do crédito caro. É preciso restaurar o primado da vida produtiva sobre a especulação, para que o Brasil possa, de fato, erguer-se e respirar.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.