O tabuleiro iraquiano, palco de milênios de história e de décadas de conflito, volta a agitar-se sob a sombra de um ultimato. Notícias dão conta de um comitê de três dirigentes em Bagdá, apressando-se para traçar um plano de desarmamento de setores das Forças de Mobilização Popular (FMP). A pressão, segundo fontes, vem direta e inegociável de Washington: as armas destas facções devem ser entregues, e seus representantes, afastados do novo governo. É um cenário complexo, onde a soberania de uma nação se vê tensionada por forças externas e, paradoxalmente, minada por poderes internos que operam à margem da autoridade estatal.
As FMP, é justo recordar, surgiram em 2014 como uma resposta vital ao terror do Estado Islâmico, com apoio iraniano, e foram formalmente incorporadas às Forças Armadas do Iraque. Muitos de seus combatentes derramaram sangue pela defesa de sua terra e de seu povo. Contudo, essa formalidade não se traduziu em subordinação plena. As organizações que compõem as FMP mantiveram autonomia política e militar considerável, transformando-se, na prática, em um corpo com vida própria, por vezes alinhado a agendas que extrapolam os interesses de Bagdá. O problema reside justamente nessa dualidade: um braço que faz parte do corpo do Estado, mas se move por vontade própria, sem o comando da cabeça.
A justiça, para edificar uma ordem social, exige que o Estado detenha o monopólio legítimo do uso da força. Sem ele, a autoridade se esvai, o direito se fragiliza e a paz social se torna uma miragem. Pio XII nos advertia sobre os perigos da massificação, da atomização do povo em grupos que, embora numerosos, não se integram à organicidade do corpo político. A autonomia das FMP, por mais que tenha raízes em um passado de combate heroico, hoje representa uma fissura na própria fundação do Estado iraquiano, impedindo-o de construir uma política externa e de segurança coesa. Não se trata, portanto, de questionar o heroísmo individual, mas de reafirmar o princípio da unidade de comando e de propósito para o bem da cidade.
É compreensível a preocupação legítima de que um desarmamento apressado possa criar um vácuo de segurança ou reacender as chamas do terrorismo, ou mesmo deflagrar uma nova onda de violência interna. A prudência exige que qualquer transição seja planejada com esmero, que os combatentes sejam devidamente reintegrados à vida civil ou às forças armadas regulares sob comando unificado, e que os processos sejam transparentes e justos, sem alimentar novas divisões sectárias. As cicatrizes do passado, incluindo a controvertida atuação de figuras como David Petraeus e a infame Brigada Lobo em 2004, lembram-nos que as soluções impostas de fora, ou mal geridas por dentro, podem gerar mais problemas do que resolvem.
No entanto, a pressão dos Estados Unidos, embora evidencie uma intromissão externa na soberania de Bagdá, também expõe uma fragilidade interna que o Iraque não pode ignorar. Um governo que não controla suas próprias forças armadas, por mais nobres que sejam suas origens, é um governo com soberania pela metade. A verdadeira edificação de um Estado forte e justo passa por um Iraque que decida por si, sem ser refém de potências externas, mas também sem ser coagido por forças armadas paralelas dentro de seu próprio território. A lealdade primária deve ser ao Estado iraquiano e ao seu povo, e não a agendas extranacionais ou faccionais. O desarmamento não pode ser um capricho, mas a consequência lógica e necessária da afirmação da soberania.
A verdadeira esperança para o Iraque não reside em equilibrismos temporários ou em concessões estratégicas a grupos armados autônomos. Reside, sim, na árdua tarefa de construir uma autoridade central sólida, capaz de impor a lei e garantir a segurança de todos os seus cidadãos sob uma única bandeira e um único comando. Isso exige coragem política, discernimento para navegar entre as pressões e, acima de tudo, a firmeza de vontade para consolidar a justiça e a ordem.
Um Estado que não detém o monopólio da força é uma casa sem telhado, à mercê dos ventos da discórdia e das intempéries de interesses alheios. A soberania, para ser real, precisa ser inteira.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.