A arte de navegar pelos turbulentos mares da política internacional, longe de ser um jogo de soma zero ou uma dança de submissões e altivezes, é a incessante busca por um justo ordenamento. Não raras vezes, as ideologias, com sua sanha de simplificar o que é intrinsecamente complexo, apontam o dedo ao menor desvio, proclamando traição ou submissão onde há, na verdade, um esforço de discernimento. É o que se observa na crítica de um diário ideológico à leitura de Moisés Mendes sobre a política externa brasileira, especialmente no que tange à reunião de Lula com Donald Trump e à postura em relação à Venezuela.
Mendes, ao interpretar o encontro Lula-Trump como um gesto de altivez, lembrando o acordo tripartite de 2010 que envolvia Brasil, Turquia e Irã — acordo este estimulado pelos Estados Unidos e, depois de aceito pelo Irã, recusado por eles e seus aliados europeus —, busca na memória diplomática um traço de soberania. A entrega de uma cópia desse documento a Trump seria, nessa leitura, um lembrete do custo da inconstância das grandes potências. Até aqui, a narrativa poderia se encaixar num quadro de busca por uma autonomia de ação. Contudo, é na questão venezuelana que a lente ideológica do crítico do governo Lula revela sua incapacidade de enxergar além do binarismo.
Após eleições contestadas na Venezuela, que resultaram na reeleição de Nicolás Maduro, o governo brasileiro, em consonância com a oposição venezuelana, os Estados Unidos, a OEA e a União Europeia, passou a exigir a divulgação das atas eleitorais. A declaração de Celso Amorim, expressando a “impaciência” de Lula com o governo venezuelano e condicionando o reconhecimento dos resultados à apresentação dos documentos, foi interpretada pelos críticos como uma “submissão de soberania”, um alinhamento a “interesses imperialistas”. Aqui reside o cerne da controvérsia e o ponto onde a miopia ideológica mais distorce a realidade.
A preocupação legítima reside, de fato, na necessidade de manter a coerência e a integridade dos princípios de política externa de qualquer nação, especialmente no que tange à democracia e à autodeterminação. Há um equilíbrio delicado entre o engajamento pragmático com todas as potências e a preservação de uma identidade diplomática independente. No entanto, o reducionismo que enxerga apenas “submissão imperialista” em toda e qualquer convergência de interesses é uma caricatura perigosa da realidade. Um Estado age com justiça quando defende princípios universais, como a transparência eleitoral e a lisura dos processos democráticos, independentemente de quem mais defenda tais princípios em dado momento.
A verdadeira fortaleza de uma política externa não se manifesta na oposição automática a qualquer interesse que, porventura, se alinhe com o de uma potência hegemônica. Antes, reside na capacidade de defender com retidão os princípios de uma ordem moral pública, conforme ensinado por Pio XII, e de resistir à tentação da estatolatria, que diviniza a soberania nacional a ponto de desvinculá-la de seus deveres éticos, como nos alertou Pio XI. A exigência brasileira de transparência nas eleições venezuelanas não é, por si mesma, um eco mecânico de Washington, mas pode ser, e de fato o é, uma manifestação autônoma de um interesse regional na estabilidade democrática.
O discernimento político exige a habilidade de negociar com adversários e, ao mesmo tempo, de pressionar parceiros quando princípios ou interesses nacionais estão em jogo. A soberania de um país se manifesta plenamente em sua liberdade de ação guiada pela reta razão, e não pela camisa de força de uma ideologia que só vê a astúcia do imperialismo, mesmo quando um povo clama por direitos básicos. Aquilo que Chesterton chamaria de “loucura lógica” das ideologias é exatamente essa incapacidade de reconhecer a sanidade por trás de ações multifacetadas em um mundo complexo.
A bússola da Nação não deve apontar ao norte ou ao sul por reflexo, mas para a estrela fixa da justiça e da reta razão.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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