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UE: A Falsa Equivalência Moral entre Colono e Hamas

A UE sanciona colonos e Hamas, forçando uma equivalência moral que distorce a justiça. Analisamos como essa simetria ignora intenções e fragiliza a busca por paz na região.

🟢 Análise

Há certos paralelos que, em vez de iluminar, obscurecem. A União Europeia, numa decisão há muito debatida e por fim aprovada, impôs sanções tanto a colonos israelenses extremistas por violência na Cisjordânia quanto a autoridades do Hamas, em um aparente aceno à equanimidade. No entanto, a tentativa de traçar uma linha reta entre a conduta criminosa de indivíduos, ainda que amparados por um Estado que ocupa um território, e as ações de uma organização terrorista com um projeto de extermínio, falha em reconhecer a ordem essencial das coisas e distorce o próprio conceito de justiça.

A verdadeira medida da justiça não reside em uma simetria aritmética forçada, mas na distinção qualitativa dos agentes e de suas intenções. É fato que a violência de colonos contra palestinos na Cisjordânia é uma grave violação da lei natural e da ordem pública, exigindo firme repreensão. Como pontuou Kaja Kallas, “extremismos e violência têm consequências”. No entanto, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e o Ministro das Relações Exteriores Gideon Saar acertam ao denunciar a “falência moral” e a “equivalência distorcida” que a UE estabelece. Há uma diferença fundamental, de causa e de espécie, entre a violência de cidadãos que agem fora ou nas margens da lei de um Estado (ainda que este Estado, em seu conjunto, seja questionável em suas políticas de ocupação) e a violência sistemática de um grupo terrorista declarado cujo propósito é a destruição de outro povo e de outro Estado. Equipará-los no mesmo pacote de sanções é ceder à loucura lógica que Chesterton talvez risse, aquela que, na busca por uma justiça abstrata e perfeitamente equilibrada na superfície, ignora a sanidade da realidade concreta.

A autoridade legítima de um bloco como a União Europeia, na aplicação de sanções, depende da veracidade e da transparência de seus critérios. A acusação israelense de que a medida é “arbitrária e política”, ou baseada em “opiniões políticas” e não em atos comprovados e individualizados, não pode ser ignorada. Para que tais ações tenham efeito moral e prático, e não sejam meras declarações ideológicas, é imperativo que a UE detalhe publicamente a base legal e as provas específicas que justificam a seleção dos sete colonos e das quatro organizações. A ausência de clareza nesse ponto, ou a percepção de que se cedem a pressões políticas internas, mina a credibilidade da própria UE como mediador imparcial e como guardiã de uma ordem internacional justa.

A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem sido clara na distinção entre a função do Estado, ainda que imperfeita, e a natureza das associações que, por sua finalidade, subvertem a ordem moral. A responsabilidade do Estado é defender seus cidadãos e manter a ordem, ao passo que grupos terroristas operam fora de qualquer ordem legítima, buscando destruí-la. Diluir essa distinção enfraquece a defesa da liberdade ordenada e a luta contra o terrorismo, que aflige não apenas Israel, mas o mundo civilizado. Tal “equivalência moral” pode, ironicamente, fortalecer narrativas radicais de ambos os lados, alimentando a vitimização e dificultando o diálogo com setores moderados que realmente buscam a paz.

O caminho para uma paz duradoura não se constrói com equivalências forçadas ou simplificações redutoras da realidade. Exige prudência no discernimento dos agentes, honestidade na avaliação das intenções e coragem para tratar cada tipo de mal segundo sua própria natureza, sem a tentação de nivelar tudo no altar de uma imparcialidade aparente. Sanções contra a violência de colonos são necessárias, sim, mas devem ser aplicadas com a clareza jurídica e a distinção moral que a complexidade do conflito exige, sob pena de confundir vítima e algoz, e, assim, esvaziar a esperança de uma ordem justa para todos na região.

Não se edifica a paz social sobre a ruína da verdade.

Fonte original: Diario de Pernambuco

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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