A casa não se constrói sobre areia movediça. A política externa de uma nação, especialmente entre países soberanos, não pode ser reduzida a um balcão de negócios ou a um capricho pessoal, por mais influente que seja a figura na Casa Branca. É com essa premissa que se deve abordar a análise sobre a suposta intervenção dos EUA nas eleições brasileiras, prognóstico de Nick Zimmerman. Ele nos alerta para a “inevitabilidade” de uma ingerência de Donald Trump, fundamentada na primazia de relacionamentos pessoais sobre a ideologia, mesmo que Trump esteja domesticamente enfraquecido pela inflação e impopularidade. Há, sem dúvida, uma preocupação legítima com a imprevisibilidade de qualquer grande potência e o risco de desestabilização de processos democráticos soberanos por ingerência externa. Mas a própria noção de “intervenção inevitável” reduz a complexidade da cena internacional a uma peça de teatro guiada por um único ator.
A tese de que Trump valoriza relações pessoais em detrimento da ideologia, ou que tais relações com figuras como Lula seriam imunes a reversões abruptas, carece da solidez que a veracidade exige. A história nos mostra que a dimensão pessoal de um líder, embora relevante, é frequentemente instrumentalizada para avançar uma agenda mais ampla, seja ela nacionalista, populista ou estratégica. Reduzir a política externa de uma superpotência à psicologia de um indivíduo é um reducionismo psicologizante que negligencia a complexa teia de interesses institucionais, burocráticos e geopolíticos. A suposta marginalização de “ideólogos do Departamento de Estado”, por exemplo, não anula a resiliência institucional da burocracia nem a continuidade de certos interesses estratégicos americanos. Um presidente domesticamente enfraquecido pode, inversamente, buscar vitórias externas para galvanizar sua base, e não apenas recuar.
Neste cenário de marés políticas voláteis, a Igreja nos oferece uma âncora: o princípio da justiça nas relações internacionais. Leão XIII, ao defender a liberdade ordenada e a família como sociedade primeira, lembra-nos que a autonomia de uma nação — como uma casa bem estabelecida — é um bem fundamental, não um objeto de manipulação estrangeira. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, nos adverte contra a idolatria do poder estatal, mesmo quando exercido por uma superpotência que busca moldar destinos alheios. O princípio da subsidiariedade, aplicado no plano internacional, exige que as nações maiores respeitem a esfera de soberania das menores, fortalecendo o que está perto em vez de esmagar seus corpos vivos. Não há justiça em pressionar, através de tarifas ou da dúvida sobre a integridade eleitoral, a capacidade de autodeterminação de um povo.
A busca por minerais críticos, por exemplo, é um interesse estratégico americano legítimo para reduzir riscos com Pequim. Contudo, essa busca não pode justificar pressões que violem a soberania ou a livre negociação de acordos. O Brasil, como nação soberana, possui sua própria capacidade de agência e discernimento político. Não é um peão num jogo de xadrez global, mas um ator com seus próprios interesses, parceiros e resiliência institucional. A retórica da “inevitabilidade” mina essa capacidade, subestimando a força dos corpos intermediários e das instituições que garantem a continuidade de um Estado para além das figuras de plantão. A humildade nos lembra que nenhum poder terreno tem o direito de projetar seu destino sobre outro, especialmente em um processo eleitoral.
O perigo real não é tanto a imprevisibilidade de um homem, mas a aceitação de que a imprevisibilidade possa corromper a ordem moral pública. A integridade de um processo eleitoral, a dignidade dos cidadãos e a autonomia de uma nação são bens que precedem qualquer “conexão pessoal” ou vantagem estratégica. A vocação de uma diplomacia não é servir a caprichos transitórios, mas construir pontes de cooperação assentadas na verdade e na justiça, onde cada parte reconhece e respeita o devido ao outro. Um país que se pretende líder mundial deve dar o exemplo de respeito à soberania alheia, não de ingerência calculada ou retórica.
A intervenção indevida nos processos eleitorais de outras nações, seja por via direta ou indireta, é um atentado contra a ordem justa internacional. A verdadeira força de uma nação reside em sua capacidade de edificar a própria casa sobre rocha firme, e não em se curvar às marés da conveniência ou aos ventos de um comando errático. O Brasil tem o direito e o dever de ancorar seu destino em sua própria vontade soberana.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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