Não é raro que, na intrincada trama da política internacional, a designação de “oprimido” sirva de salvo-conduto moral, desviando o olhar da responsabilidade ou da projeção de poder intrínseca a todo ator global de peso. Há uma tentação perene, particularmente forte na análise política, de reduzir a complexidade das relações entre as nações a uma simples dicotomia entre um império vil e suas vítimas puras. As legítimas preocupações com o unilateralismo dos Estados Unidos, suas sanções, intervenções e o declínio relativo de sua hegemonia — expresso nas crescentes dívidas internas e nas tensões em suas alianças — são pontos válidos para o debate estratégico. É inegável que a balança de poder pende historicamente para Washington, e que as marcas de seu intervencionismo são profundas em muitas paragens.
Contudo, a simplificação perigosa reside em concluir que qualquer potência que resista ou seja alvo de sanções ocidentais está, por definição, isenta de qualquer traço imperialista ou explorador. A realidade, como nos ensina São Tomás de Aquino ao distinguir as causas e a ordem dos bens, é quase sempre mais matizada. Um país pode ser, simultaneamente, alvo de pressões externas e reprodutor de lógicas de dominação em sua própria esfera de influência. Pretender que nações com vastos recursos, poderio militar e projeção econômica global, como a China e a Rússia, sejam puramente “oprimidas” por estarem sob sanções ou por serem adversárias geopolíticas dos EUA, é confundir o sintoma com a doença, ou a reação com a inocência.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, passando por Pio XI e Pio XII, condena qualquer forma de dominação que viole a justiça entre os povos e a dignidade das nações. O imperialismo não é apenas um fenômeno geográfico ou histórico restrito a um polo. Ele se manifesta sempre que um Estado, por meios econômicos, políticos, militares ou culturais, subordina a soberania de outros, explora seus recursos, ou impede seu desenvolvimento autônomo, em detrimento do bem comum universal. É uma desordem da vontade, uma busca insaciável por poder e riqueza às custas alheias. Não importa a bandeira, nem o regime, tampouco a ideologia que o justifique.
Pio XI, em sua crítica à estatolatria, já alertava para os perigos de uma exacerbação do poder estatal, mesmo sob pretextos de defesa nacional ou de construção de um “bloco de resistência”. A justiça nas relações internacionais não se mede pela ausência de sanções externas, mas pela conduta intrínseca de cada nação para com seus vizinhos e para com a comunidade global. Ignorar as vastas redes de investimento chinês na África e América Latina, a projeção militar russa em sua vizinhança ou as violações de direitos humanos em seus próprios territórios, sob o pretexto de que são “inferiorizadas” ou “oprimidas” pelo Ocidente, seria uma falha de veracidade elementar.
A sanidade, para Chesterton, muitas vezes reside em aceitar o paradoxo e a complexidade do real, em vez de se refugiar em simplificações ideológicas que dividem o mundo em campos de mocinhos e vilões absolutos. A negação de que potências não-ocidentais podem ter suas próprias ambições hegemônicas, reproduzindo padrões de dependência e exploração, é uma forma de loucura lógica. A verdadeira autonomia de um povo não se constrói trocando uma dependência por outra, mas edificando a sua própria casa, com base em princípios de justiça e subsidiariedade que respeitem a dignidade de cada nação e a vocação de cada pessoa.
A tarefa do analista, e de todo cidadão que busca a verdade, é distinguir o que é problema moral real do que é vício ideológico. A condenação do imperialismo deve ser universal, sem distinções de cor ou credo geopolítico. Quando as marés da política internacional nos empurram para a falsa escolha entre um “opressor” já conhecido e um “oprimido” que convenientemente ignora suas próprias sombras, a voz da reta razão e da justiça social nos conclama a olhar além da superfície.
Afinal, a ordem internacional justa não pode ser erguida sobre a fumaça de meias-verdades ou sobre a legitimação de novas formas de dominação.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.