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Impeachment: Quando a Política Silencia a Verdade Histórica

Dez anos após o impeachment, a conveniência política silencia a memória e a justiça. A Doutrina Social da Igreja critica a amnésia seletiva que corrói a ordem moral pública.

🟢 Análise

Dez anos após uma cisão que abalou os alicerces da República, o que se vê é uma conveniência política que silencia a história e ignora a verdade. A efeméride do voto parlamentar que abriu caminho para o impeachment de uma presidente não se presta a revisitar o mérito jurídico do ato em si, mas a perscrutar a postura dos protagonistas — aqueles que, outrora em lados opostos da trincheira, hoje compartilham o mesmo palanque, com sorrisos ensaiados e declarações que beiram a amnésia seletiva. Não é a memória do evento que incomoda, mas a recusa em extrair dele uma lição de justiça.

Onde antes havia discursos inflamados e justificativas peremptórias, hoje impera o silêncio complacente ou o eufemismo polido. A maioria das lideranças contactadas preferiu o mutismo, e poucas, muito poucas, admitiram um “erro histórico” ou um “arrependimento”. Outras, mais sofisticadas, “lamentaram as consequências”, mas não o ato. Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar as loucuras lógicas da modernidade, talvez sorrisse com a ironia amarga: não há nada tão prático quanto uma boa teoria, e nada tão imprático quanto um pragmatismo que renega a própria história em nome da próxima eleição. Esse “pragmatismo” não é virtude, mas um cálice de cicuta para a memória institucional e a veracidade pública.

A Doutrina Social da Igreja, atenta à saúde do corpo social, nos ensina que a paz duradoura não se constrói sobre areias movediças de conveniências transitórias, mas sobre a rocha firme da justiça. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, advertia para o perigo de uma vida pública onde a opinião é manipulada e a memória, instrumentalizada. Quando a verdade histórica de uma nação é tratada como mercadoria descartável na feira das alianças políticas, o que se corrói não é apenas a credibilidade de alguns indivíduos, mas a própria ordem moral pública. O eleitor, o cidadão comum, vê-se diante de um espetáculo onde a coerência é um luxo, e o princípio, um estorvo para a ascensão ao poder.

A ausência de uma autocrítica genuína, a retórica que transforma uma “justificativa frágil” ou um “trauma gerado pela ruptura” em meros percalços passados, sem um reconhecimento explícito da responsabilidade e do impacto das decisões tomadas, é um ataque à virtude da veracidade. Como pode um processo, tão fundamental para a governabilidade de uma nação, ser ora “golpe”, ora “erro histórico” para alguns, e para outros, “decisão institucional” inquestionável, dependendo da cadeira ocupada ou do palanque a ser montado? Essa maleabilidade moral não é sinal de grandeza, mas de uma profunda fragilidade ética, que mina a confiança em qualquer promessa política futura. O “evitar a barbárie”, como se alega, não justifica uma anistia informal que impede o acerto de contas com o passado.

Essa superficialidade no trato da memória histórica e da justiça – não apenas a justiça legal, mas a virtude que dá a cada um o que lhe é devido, inclusive a verdade – contribui para a estatolatria que Pio XI tanto criticava. O Estado, em vez de guardião de princípios e da ordem natural, torna-se um palco de negociações onde a verdade é flexível e os atores trocam de papel conforme o roteiro eleitoral. A fragilização das instituições democráticas ocorre precisamente quando a “ingovernabilidade” se torna álibi para rupturas, e a “estabilidade” é conquistada pela compra de apoios, diluindo identidades e esvaziando a política de seu conteúdo moral e programático.

A verdadeira reconciliação, a que a Doutrina Social aponta, exige mais que a partilha de cargos. Ela pede o reconhecimento da verdade, a assunção de responsabilidades e a reconstrução de pontes fundadas na honestidade intelectual. Não basta lamentar o ocorrido; é preciso compreender o porquê de ter ocorrido, e, mais importante, garantir que as fissuras institucionais, que permitiram tais rupturas, sejam de fato reparadas com a argamassa da lei justa e da virtude, e não apenas disfarçadas pela pintura nova de uma coalizão eleitoral. A casa comum, a República, só será segura se seus alicerces forem firmes na verdade, e não na conveniência.

O tempo, esse juiz inexorável, revelará que a paz alcançada pelo silêncio sobre o passado é sempre precária. A memória não se apaga por decreto ou por pactos de gabinete. Ela insiste em clamar por justiça, para que as gerações futuras não herdem apenas a instabilidade do oportunismo político, mas a solidez de um Estado que se forja na verdade.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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