Atualizando...

Impeachment de Dilma: 10 Anos de Amnésia Cívica no Brasil

Dez anos após o impeachment de Dilma, a política brasileira revela amnésia cívica. Líderes silenciam sobre 2016. Uma 'frente ampla' de conveniência mina a verdade e a solidez democrática.

🟢 Análise

A cena política brasileira, dez anos após o trauma do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, revela um espetáculo de flexibilidade e silêncio que, longe de ser um sinal de maturidade democrática, se apresenta como um convite à amnésia cívica. A Folha de S.Paulo, ao revisitar as posições de 19 lideranças que hoje gravitam na órbita do governo Lula, expõe não uma reconciliação fundamentada, mas uma conveniência negociada. A maioria silencia, alguns lamentam as “consequências” sem reconhecer o erro intrínseco do ato, e uns poucos ousam admitir um “erro histórico”. Esse quadro de posições elásticas, quando submetido ao escrutínio da verdade pública, não conforta, mas inquieta.

A chamada “frente ampla”, construída sobre o esqueleto de um conflito institucional tão grave, exige mais do que a mera soma de interesses pragmáticos. Quando figuras que classificaram o impeachment como “legítimo” ou “necessário” coabitam com aqueles que o taxaram de “aberração jurídica” e “golpe”, sem um acerto de contas substancial e público sobre a natureza de 2016, a mensagem transmitida ao cidadão é perigosa. O povo, advertia Pio XII, pode degenerar em massa quando a clareza e a coerência dos líderes são corroídas pela indistinção de princípios, pela ausência de uma “verdade pública” que Leão XIII já indicava como essencial para a liberdade ordenada e a saúde da comunidade política.

A virtude da veracidade é aqui a bússola que se perde. O impeachment de um presidente da República não é um mero lance de xadrez político a ser esquecido na próxima rodada de alianças. É um ato de altíssima gravidade institucional, cujas justificativas e procedimentos devem ser objeto de uma honestidade intelectual inegociável. A relativização daquela “justificativa frágil” ou da “crise econômica e política grave” como motor exclusivo, sem uma profunda autocrítica sobre a legalidade ou a justiça da cassação, mina a própria capacidade da democracia de aprender com seus erros. São Tomás de Aquino nos ensina que a ordem dos bens exige que a busca da reta razão preceda a conveniência imediata. O cálculo político do agora não pode eclipsar a verdade do passado, devida à história e aos cidadãos.

O silêncio de doze das dezenove lideranças procuradas pela Folha não é neutro; é sintomático de uma assimetria de poder onde o constrangimento ou o cálculo eleitoral prevalecem sobre o dever de transparência. É uma forma de não prestar contas, de evitar a exposição de uma incoerência que, se fosse plenamente assumida e justificada, poderia ao menos servir de lição. Mas o que se vê é a sanidade cívica posta à prova por uma espécie de loucura lógica, como diria Chesterton, onde a defesa de um sistema de poder flexível suplanta a rigidez dos princípios. Como pode o Partido dos Trabalhadores, principal vítima daquele processo, absorver seus ex-opositores sem exigir destes uma autocrítica pública e irrestrita, sob pena de esvaziar a própria narrativa de “golpe” que ainda sustenta?

As “consequências nefastas” lamentadas por Simone Tebet, ou o “trauma gerado pela ruptura” reconhecido por Rodrigo Pacheco, permanecem no ar, sem um responsável claro que pague a conta moral ou histórica. A justiça exige que a responsabilidade não seja dissolvida em um caldo de generalidades. Sem um reconhecimento explícito da natureza do erro, a porta fica aberta para que futuros “crimes de responsabilidade” ou “crises de governabilidade” sejam manipulados com a mesma facilidade, transformando a tragédia em tática e a coerência em obstáculo. A ausência de “transparência curricular” na trajetória de tantos políticos, que mudam de partido e de discurso conforme o vento do poder, impede que a sociedade possa julgar com retidão e discernimento.

A conciliação, para ser virtuosa, deve ter a verdade como seu alicerce. Sem um acerto de contas com a memória institucional, essa “frente ampla” arrisca-se a ser vista como um mero arranjo de conveniência, um baile de máscaras onde os princípios são acessórios descartáveis. A democracia não se salva pelo esquecimento conveniente ou pela amnésia negociada, mas pela solidez da verdade e pela firmeza dos princípios.

A solidez de um edifício democrático não reside na maleabilidade de suas paredes, mas na inabalável firmeza de seus alicerces morais.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados