A leitura da história é, por essência, um exercício de justiça. Exige dar a cada fato, a cada personagem, a cada força em jogo, o seu devido peso e lugar no intrincado tear dos acontecimentos. Não é, e jamais será, uma tela em branco para projeções ideológicas que buscam validar teses predeterminadas. Quando o Diário Causa Operária, por exemplo, debruça-se sobre a biografia de D. Pedro I de Otávio Tarquínio de Souza e a desqualifica por não ser o que não se propõe a ser — uma história social focada nos escravizados e trabalhadores — não apenas comete uma falha categorial, mas revela um vício reducionista que empobrece a própria compreensão do passado.
Reconheçamos, contudo, a fibra de verdade na inquietação subjacente: a história, quando contada apenas do alto dos tronos e palácios, tende a silenciar as vozes e as vidas da vasta maioria. A invisibilidade dos grupos oprimidos, dos escravizados que sustentaram a opulência e poder da família real e da corte, é uma legítima preocupação que clama por uma historiografia mais completa e humana. É um dever de veracidade e justiça que o historiador, em seu campo específico, busque desvelar as estruturas de dominação e exploração que conformaram uma época, integrando-as na grande narrativa nacional sem, contudo, distorcer a totalidade dos fatos.
Onde o Diário Causa Operária derrapa é na pretensão de impor um cânone único de leitura, uma lente materialista histórica que, embora válida em seu propósito, não pode ser a única medida de todas as coisas. São Tomás de Aquino, com sua doutrina das causas, recorda-nos que a realidade é multifacetada. Não há apenas causas materiais e eficientes no plano social; há também a formalidade da vontade humana, a finalidade da ação e a agência dos indivíduos que, mesmo inseridos em circunstâncias dadas, não são meros autômatos. Reduzir D. Pedro I a um epifenômeno das condições socioeconômicas é ignorar a complexidade da interação entre estrutura e agência, entre o palco e o ator. É substituir o povo, com sua capacidade de iniciativa e decisão, por uma massa amorfa e determinada, uma distinção tão cara a Pio XII.
A biografia, como gênero historiográfico, tem sua própria dignidade e valor. Ela nos permite perscrutar como a personalidade, as escolhas, os defeitos e as virtudes de um indivíduo — como a valentia e o temperamento autoritário de D. Pedro I, ou a pusilanimidade de D. João VI — se entrelaçam com os grandes movimentos históricos. O Tomo 1º de Otávio Tarquínio de Souza, ao esmiuçar a juventude do futuro imperador em terras brasileiras, sua adaptação ao constitucionalismo e sua articulação com José Bonifácio para garantir a unidade territorial, oferece uma camada de compreensão que nenhuma análise puramente estrutural poderia entregar. Afinal, a própria citação de Marx, invocada pelo DCO, reconhece que “Os homens fazem sua própria história”, ainda que “não a façam como querem”. Essa tensão entre liberdade e determinação é o próprio motor da história humana, e ignorar um dos polos é empobrecer a trama.
O polemista ideológico, imbuído de uma “loucura lógica” que Chesterton tão bem satirizava, tende a anular o indivíduo em nome da abstração da classe ou da estrutura. Mas a verdade da Doutrina Social da Igreja, que valoriza a dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões, ensina-nos que a história é feita por pessoas concretas, com suas escolhas, seus erros e seus heroísmos. Que a legítima preocupação com a justiça social não se torne um pretexto para o dogmatismo que deforma a complexidade da realidade. A historiografia, para ser íntegra, precisa ser um mosaico de narrativas, onde a biografia do grande sujeito dialoga com a vida dos humildes, e as forças sociais com a agência pessoal.
Não se trata de negar a importância das estruturas ou de minimizar o drama da exploração histórica, mas de defender a integridade de uma visão que apreende a história em sua plenitude, sem reduções. A verdadeira humildade intelectual reside em aceitar que a realidade excede qualquer sistema explicativo único. A síntese catolicamente orientada exige que se dê a César o que é de César, e aos homens a sua parte na construção (ou desconstrução) do mundo, mas sempre reconhecendo que a mão de Deus, que governa todas as coisas, opera através de todas as causas, inclusive as mais livres. O passado, como um rio caudaloso, comporta múltiplas correntes; quem pretende represá-lo em um único leito, empobrece-o e o desvia de seu destino.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.