A oferta de um cuidado personalizado, embrulhada em algoritmos e dispositivos de última geração, pode ser a mais sedutora das promessas num tempo de avanços técnicos. As chamadas FemTechs surgem alardeando uma revolução, preenchendo uma lacuna histórica na pesquisa e desenvolvimento de saúde que, por décadas, priorizou o corpo masculino. É uma denúncia justa, sem dúvida, que o cuidado com a saúde feminina tenha sido preterido, e qualquer tecnologia que vise suprir esse déficit merece atenção. Mas o risco está em trocar um déficit histórico por uma armadilha moderna, onde a solução tecnológica engendra problemas maiores que os que se propõe a resolver.
O corpo humano, um santuário de dignidade e mistério, agora se vê dissecado em pacotes de dados, rastreado em ciclos, quantificado em hormônios. O que é apresentado como “personalização” pode facilmente transmudar-se em uma nova forma de vigilância e controle, onde a soberania sobre os próprios dados e, em última instância, sobre o próprio corpo, é silenciosamente cedida a corporações e algoritmos opacos. A coleta massiva de informações sensíveis – sobre fertilidade, gestação, menopausa, histórico ginecológico – levanta uma questão de justiça basilar: a quem pertencem esses dados? Quem se beneficia de sua análise e monetização? A Doutrina Social da Igreja adverte que o progresso técnico, desvinculado da ética e da prioridade da pessoa, pode facilmente se converter em nova servidão.
Mais do que isso, a sedução das FemTechs esbarra na medicalização excessiva da vida. Processos biológicos naturais, como a menstruação e a menopausa, são rapidamente redefinidos como “problemas” a serem incessantemente monitorados e “otimizados”. Cria-se uma dependência tecnológica que fomenta ansiedade e aliena a mulher de sua experiência corporal, substituindo a sabedoria intrínseca do organismo por uma métrica digital a ser incessantemente perseguida. A virtude da temperança exige que se resista ao frenesi de controle total sobre o que é natural, reconhecendo os limites da técnica e a necessidade de aceitar os ritmos da vida sem a imposição de um ideal de performance algorítmico. Como Pio XII alertou sobre a massificação, a promessa de “padrões populacionais” pode, paradoxalmente, apagar a individualidade, transformando pessoas em meros dados anônimos para a “fábrica” da tecnologia.
É fundamental, portanto, inquirir sobre a verdadeira justiça dessas soluções. Se a pesquisa médica anterior foi enviesada, como garantimos que os novos algoritmos não replicarão ou criarão novas iniquidades? O acesso a essas tecnologias depende de poder aquisitivo e infraestrutura digital, o que significa que o “cuidado personalizado” se tornará um luxo, aprofundando as desigualdades em saúde e marginalizando aqueles que mais precisam. Não se combate um déficit histórico com uma solução que apenas serve a uma elite, sob o véu de uma falsa universalidade. A verdadeira ordem justa exige que os bens da saúde sejam acessíveis a todos, e não condicionados à capacidade de consumo de gadgets.
Em vez de uma estatolatria tecnológica que se arroga o poder de ordenar a vida biológica e íntima, é preciso um discernimento reto sobre o lugar da técnica. Leão XIII nos recorda que a família é uma sociedade anterior ao Estado; por analogia, a integridade da pessoa e a autonomia sobre o próprio corpo precedem qualquer aparato tecnológico ou corporativo. As FemTechs têm o potencial de ser ferramentas valiosas se estiverem a serviço da pessoa, e não o contrário. Mas para isso, necessitam de validação clínica rigorosa, governança transparente dos dados, e um compromisso inabalável com a verdade e a justiça na distribuição de seus benefícios. Do contrário, a “revolução” da saúde feminina será apenas a última fronteira da colonização do humano pela lógica do mercado digital.
A escolha é clara: ou as FemTechs se submetem a uma sólida moldura ética que priorize a dignidade da mulher em sua integralidade, defendendo sua autonomia real e a confidencialidade de seus dados, ou se tornarão mais um sintoma da obsessão tecnocrática que, sob a bandeira da eficiência, desumaniza e explora. O progresso verdadeiro se mede pela elevação da pessoa, não pela acumulação de dados.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.