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Eleições em Gaza: Voto Fragmentado, Soberania Vazia

Eleições municipais em Gaza e Cisjordânia buscam unificação, mas o artigo revela: o voto fragmentado e a exclusão da Faixa esvaziam a soberania e a paz real na Palestina.

🟢 Análise

O rito do voto, em sua pureza original, é a expressão de um povo que governa a si mesmo, um pilar da dignidade humana. Mas há instantes em que a cerimônia eleitoral, descontextualizada da realidade, mais se assemelha a uma pintura de paisagem sobre um campo de ruínas, uma mera fachada para um edifício em desmantelamento. As recentes eleições municipais em Deir al-Balah, na Faixa de Gaza, e em partes da Cisjordânia, foram apresentadas como um renascimento democrático, um passo em direção à unificação. A realidade, contudo, é um testemunho pungente da profunda fragmentação política e territorial, um reflexo de que o processo, por mais bem-intencionado, arrisca mais solidificar a divisão do que construir a unidade.

Não se trata de negar o anseio por ordem e representatividade que impulsiona o eleitor palestino que, após duas décadas sem voz nas urnas de Gaza, busca restaurar algum senso de normalidade e autogoverno. O problema reside na veracidade da própria estrutura proposta. Uma taxa de participação de 22,7% em Deir al-Balah, em contraste com os 53,44% na Cisjordânia, sugere uma profunda desilusão ou desconfiança na capacidade do pleito em alterar substancialmente o cenário. Mais grave ainda é a exclusão da vasta maioria da Faixa de Gaza do processo eleitoral, justificada pela “destruição generalizada”. Tal exclusão não apenas sublinha a incapacidade da Autoridade Palestina de exercer autoridade plena, mas esvazia a própria ideia de que estas eleições representam um passo genuíno para um Estado palestino unificado e verdadeiramente independente.

Como já ensinava Pio XII, não basta a forma da democracia para que haja um povo verdadeiramente livre; é preciso que a substância da autodeterminação não seja esvaziada por forças que transformam cidadãos em massa passiva. A asserção do presidente Mahmoud Abbas de que “Gaza é parte inseparável do Estado da Palestina” soa retórica vazia quando a Autoridade Palestina mal consegue orquestrar um pleito numa única cidade de uma região da qual foi expulsa há quase duas décadas. A dependência contínua de Israel, que retém receitas fiscais e expande assentamentos na Cisjordânia, somada à declaração de um ministro israelense de que se busca “matar a ideia de um Estado palestino”, evidencia a brutal assimetria de poder que esvazia a soberania eleitoral de seu significado político.

A aparente “aquiescência” do Hamas em Gaza, ao permitir a votação e mobilizar sua polícia civil para proteger as seções eleitorais, é um gesto paradoxal. Longe de fortalecer a Autoridade Palestina de forma inequívoca, tal permissão pode, na prática, legitimar a própria influência local do Hamas, conferindo-lhe um verniz de institucionalidade sob a égide do pleito, sem exigir-lhe a total responsabilidade de governança sobre a Faixa devastada. O foco em Deir al-Balah, uma das poucas cidades “menos danificadas”, desvia a atenção da catástrofe humanitária e infraestrutural que assola a maior parte de Gaza, criando uma falsa percepção de normalidade ou de capacidade da AP em governar a Faixa.

A justiça exige que o direito de um povo à autodeterminação seja real, e não uma encenação política. Um juízo reto nos impõe questionar se a comunidade internacional, ao apoiar estes pleitos como sinal de progresso, não está, inadvertidamente, validando uma arquitetura de ilusão. O que Chesterton talvez dissesse é que o paradoxo reside em celebrar uma eleição fragmentada como sinal de unidade, quando a sanidade exige reconhecer que um edifício não se ergue sobre alicerces tão visivelmente rachados. A paz e a dignidade para o povo palestino não brotarão de eleições simbólicas que apenas maquiam a desunião e a subordinação.

A soberania verdadeira exige mais do que urnas esparsas; exige a construção paciente e dolorosa de uma comunidade política que se reconheça em sua totalidade, livre de grilhões externos e divisões internas. Até lá, o voto em Deir al-Balah, por mais bem-intencionado que seja o eleitor, será apenas um eco distante da voz que o povo palestino anseia verdadeiramente expressar, num campo onde os escombros falam mais alto que os discursos.

Fonte original: SiteBarra

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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