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Christian Dunker: Tecnologia e a ilusão da saúde mental fácil

Christian Dunker alerta: a tecnologia promete bem-estar mental, mas aprisiona. Analisamos a despersonalização do 'império da facilidade' e a primazia da pessoa, inspirados na Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

A promessa de um atalho para o bem-estar mental, servida à la carte por algoritmos e inteligências artificiais, mais parece o canto da sereia que atrai o navegante para as rochas. O psicanalista Christian Dunker, ao alertar sobre os perigos da hiperconexão e da cultura da performance, acerta em uma questão essencial para a ordem moral pública de nossos tempos: a tecnologia, em vez de nos libertar, pode aprisionar a alma em uma câmara de eco narcísica. É um convite à reflexão sobre o que realmente significa a saúde do espírito e a integridade da pessoa, para além da facilidade que tanto nos seduz.

Vivemos, como bem assinala Dunker, sob o “império da facilidade”, onde a busca incessante por uma “melhor versão” de si, por “superpessoas” em “performance máxima”, culmina na despersonalização e no sofrimento. Não se trata de negar o avanço tecnológico, mas de discernir seu impacto sobre a substância do ser humano. Pio XII, em sua crítica à massificação, já advertia para o risco de transformar o “povo” — uma comunidade orgânica de pessoas com laços e valores — em “massa” — um aglomerado informe e facilmente manipulável. As plataformas digitais, ao monetizar afetos destrutivos como o ódio e a competitividade, e ao promover identidades em confronto, podem acelerar essa triste transmutação, corroendo os laços de comunidade e aprofundando a solidão.

A despersonalização não para na superfície das redes sociais. Ela se infiltra também nos modos de tratar a própria alma. Dunker critica a “homogeneização da linguagem da ciência” e a prevalência de meta-análises em saúde mental, que buscam uma “língua geral” aplicável a “tudo igual para todo mundo”. Ora, a Doutrina Social da Igreja sempre defendeu a primazia da pessoa concreta, com suas particularidades e sua história, sobre a abstração universalista. A verdadeira veracidade no trato da saúde mental exige considerar as nuances de cada sujeito, a realidade local e a complexidade de suas causas, e não uma solução massificada que ignora a alma em sua singularidade irredutível. Tratar a pessoa como um conjunto de sintomas para os quais há um protocolo padrão, e não como um ser integral com dignidade própria, é o atalho que leva ao abismo da impessoalização.

Nesse cenário, a figura do ChatGPT, “fascinado por dizer o que você quer”, torna-se um símbolo da falácia da facilidade. Enquanto uma boa terapia, na visão do psicanalista, deve ser como um “inimigo que, com carinho e cuidado, vai te dizer verdades amargas e que serão transformativas”, a inteligência artificial oferece a doce, mas ilusória, confirmação de nossas próprias opiniões e fraquezas. Contudo, é justo ponderar: a busca por ferramentas de autoajuda ou o desejo por comunidades online de apoio, especialmente em contextos de escassez de recursos ou de barreiras geográficas e financeiras, não é ilegítima. A tecnologia, quando bem empregada, pode ser um ponto de entrada vital para muitos que, de outra forma, jamais buscariam ajuda. A questão reside em diferenciar a facilidade que serve como porta da facilidade que se impõe como parede, impedindo o passo adiante.

O uso saudável da tecnologia, portanto, exige temperança e discernimento. Não se trata de uma substituição, um “em vez de” as experiências do mundo real, mas de um “com”, que amplia o universo de repertórios e “cria litorais” entre o digital e as linguagens da cultura, da família, da escola e da comunidade. A subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social da Igreja (Pio XI), nos lembra que o que pode ser feito pelas instâncias menores — a família, os grupos locais, as associações — deve ser feito por elas, sem esmagamento pela instância maior. Construir esses “litorais” é, em essência, fortalecer os corpos intermediários da sociedade, que oferecem os contrapesos necessários ao individualismo hiperconectado e à homogeneização cultural.

A experiência do próprio Dunker com seu canal no YouTube, que “baixou da elite” para um público amplo, demonstra que a tecnologia pode ser um veículo para democratizar saberes, desde que haja um equilíbrio entre o alcance digital e a profundidade da experiência humana. A psicanálise brasileira, nesse sentido, cumpre um papel de “contrabalanço” ao valorizar a especificidade e a história do sujeito contra a massificação dos tratamentos. A grandeza da alma não reside na busca pela “sua melhor versão” segundo métricas externas de desempenho, mas na capacidade de confrontar a própria verdade, com humildade e persistência, para edificar uma vida que, mesmo imperfeita, seja plena e integrada.

A saúde mental, assim, não é um produto a ser consumido ou uma performance a ser alcançada, mas um estado de alma que floresce na verdade e no equilíbrio. A tecnologia, por mais avançada que seja, será sempre uma ferramenta. A sabedoria está em usá-la como um meio para um fim mais elevado: a dignidade da pessoa humana, a solidez dos laços sociais e a busca constante de uma vida que se construa sobre rocha, e não sobre a areia movediça da facilidade e da confirmação inquestionável.

Fonte original: Estadão

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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