A imagem de uma nação dilacerada, com seu corpo político fraturado em duas coalizões irreconciliáveis, é um quadro que se impõe à nossa atenção. O cientista político Marcos Nobre, ao observar a cena eleitoral brasileira, aponta para uma “divisão” profunda, distinta de mera polarização, ancorada em um conflito redistributivo que ele considera incontrolável. Esta análise, embora capte a acidez do embate público e a notável influência de novas ferramentas de mobilização como o “partido digital bolsonarista”, peca por um determinismo histórico e um reducionismo causal que obscurecem a complexidade real da sociedade e as vias legítimas para sua recomposição.
De fato, a fragmentação do Congresso, a crescente dificuldade de formar coalizões duradouras, a proeminência do Poder Judiciário na arbitragem de conflitos e a persistência de eleitorados engajados nos polos atuais são preocupações legítimas. A ascensão de plataformas digitais, capazes de operar com agilidade e engajamento sem as amarras formais dos partidos tradicionais, representa um desafio real à ordem institucional e à transparência. No entanto, reduzir a totalidade dessa divisão a um “conflito redistributivo” primário e “incontrolável” é simplificar em demasia a intrincada trama da vida social.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a sociedade não é meramente um agregado de indivíduos ou um campo de batalha de interesses econômicos. Ela é um organismo complexo, formado por corpos intermediários, por famílias, por comunidades de fé e cultura, onde o homem busca não apenas bens materiais, mas também a verdade, a beleza, a virtude e o destino comum. São Tomás de Aquino nos lembra que a reta razão busca a ordem dos bens, e esta não pode se restringir ao plano econômico. A adesão a uma dada visão política muitas vezes brota de uma profunda percepção de ameaça a valores morais, culturais e identitários, que não se traduzem simplesmente em percentuais de imposto ou programas de transferência. Ignorar essas dimensões é aplicar uma lente estreita demais à multifacetada realidade humana.
Quando se afirma que uma “terceira via” é uma “ideia fantasiosa” ou um “estacionamento” onde se espera o inevitável, corre-se o risco de deslegitimar a própria capacidade de agência política. A verdadeira superação de uma divisão crônica não reside em aguardar um “erro” do adversário ou na mera moderação entre extremos, mas na apresentação de um projeto positivo, enraizado em princípios permanentes, capaz de oferecer um horizonte de esperança e reconstrução. Uma sociedade não pode ser governada com estabilidade e justiça se suas elites intelectuais e políticas se resignam à ideia de uma divisão “inescapável” e “incontrolável”. Isso é uma renúncia à magnanimidade política e à laboriosidade cívica, que deveriam buscar a integração de todos os membros no bem da cidade.
O desafio de “isolar a extrema direita” e “definir regras justas de competição democrática”, como propõe o analista, torna-se paradoxalmente mais difícil se a própria análise nega a possibilidade de novas articulações ou a resiliência do sistema. A humildade intelectual exige reconhecer que, mesmo em tempos de crise, a engenhosidade humana e a graça divina podem abrir caminhos onde a lógica determinista só vê impasses. O fim do presidencialismo de coalizão tradicional não significa o fim da governabilidade, mas a exigência de uma nova veracidade na articulação política, onde o diálogo e o respeito à separação de poderes – e não a centralização no Judiciário – se tornem os alicerces de qualquer pacto.
A “vantagem desleal” do “partido digital”, que não presta contas ao Tribunal Superior Eleitoral, é menos uma prova de seu poder invencível e mais um sintoma da negligência dos corpos sociais em adaptar-se e exigir transparência e equidade de meios. Não se combate a desorganização com o lamento do determinismo, mas com a exigência de justiça e a veracidade nas regras do jogo. A saúde da pólis requer que os cidadãos e as instituições busquem as causas profundas da desagregação, que vão além da matéria econômica, e edifiquem soluções com a coragem da fortaleza e a luz da esperança, que não se dobra ao fatalismo.
O corpo social, quando enfermo, não se cura pela resignação à doença, mas pela busca incansável da verdade que o liberta e da justiça que o ordena.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.