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Derrite, PCC: Crime Organizado e a Armadilha do Terrorismo

Derrite propõe classificar PCC e CV como terrorismo. Análise crítica da retórica de Campinas expõe a simplificação do crime organizado, alerta para riscos e defende políticas de segurança transparentes.

🟢 Análise

O palanque político, em sua essência, é um palco de promessas e convocações, onde a palavra busca mover as paixões e os votos. Em Campinas, o lançamento da pré-campanha de Guilherme Derrite ao Senado Federal, ladeado por nomes expressivos do campo conservador, desenhou um quadro de urgência diante da ascensão do crime organizado, do PCC e do Comando Vermelho. A bandeira erguida é a da formação de uma maioria no Congresso, capaz de classificar tais facções como organizações terroristas, e assim pavimentar o caminho para um presidente de direita. A preocupação com a violência e o avanço dessas redes criminosas é, sem dúvida, legítima e angustiante para todo cidadão.

Contudo, a luta contra o crime organizado, que corrói o tecido social e mina a liberdade ordenada, não pode ser reduzida a um mero slogan de campanha ou a uma classificação legal simplista, ainda que retumbante. A complexidade do fenômeno exige mais do que a retórica da “coragem” política; ela demanda um entendimento profundo das raízes que alimentam essa criminalidade. Ignorar a corrupção institucional, as vastas redes de lavagem de dinheiro, o tráfico de armas e as falhas socioeconômicas que oferecem mão de obra farta a essas facções é tratar apenas o sintoma, não a doença. São Tomás de Aquino nos ensina a distinguir as causas, e aqui, a distinção entre a causa eficiente do crime e as causas materiais e formais de sua proliferação é vital.

A proposta de combater o “terrorismo” em vez da criminalidade organizada já existente, pode, paradoxalmente, conferir a esses grupos um status político que eles não possuem intrinsecamente, escalando o conflito e arriscando legitimar internacionalmente o que são, em sua essência, estruturas criminosas. Uma política de segurança pública que se pretenda eficaz e justa deve transcender o mero alinhamento ideológico, abraçando uma abordagem multifacetada que priorize inteligência, descapitalização das redes ilícitas e reformas sociais que desidratem a base de recrutamento.

Há, ainda, uma sombra de inautenticidade quando a mesma plataforma que clama por “lei e ordem” desvia a atenção de questões de transparência interna. A menção ao “escândalo do Master” e a atribuição de sua responsabilidade a um partido oposto, ao mesmo tempo em que a presença de figuras controversas como Daniel Vorcaro é evitada na pauta, revela uma manobra retórica. A verdade devida à sociedade exige clareza e honestidade sobre os fatos, especialmente de quem se propõe a reformar a vida pública. Pio XII advertia contra a transformação do “povo” em “massa”, um corpo passivo moldado pela propaganda, em vez de uma comunidade ativa e discernente.

O Estado tem o dever irrenunciável de proteger seus cidadãos. Este é um imperativo de justiça. No entanto, o modo como essa proteção é exercida define a saúde moral de uma nação. A simples busca por uma maioria ideológica, por mais conservadora que se declare, não substitui a substância de políticas públicas robustas, baseadas em dados, ética e na busca pelo bem integral da pessoa humana e da sociedade. Leão XIII, ao falar da liberdade ordenada, recordava que a verdadeira ordem se constrói na articulação harmoniosa dos diversos corpos sociais e no respeito aos direitos e deveres de cada um, e não na imposição de um programa que esmague as nuances da realidade.

A sanidade da vida pública, como diria Chesterton em seu combate à loucura lógica das ideologias, exige que reconheçamos a realidade tal como ela é, em sua complexidade, e não como gostaríamos que ela fosse. O avanço do crime organizado é uma chaga real que exige uma resposta séria, não um espetáculo de sombras chinesas projetadas no muro. Uma nação forte e justa não é aquela que apenas grita mais alto, mas aquela que constrói sua segurança sobre os alicerces inabaláveis da justiça social, da verdade inegociável e de uma reta ordem institucional.

A verdadeira segurança se ergue quando a lei é aplicada com veracidade e discernimento, e não apenas com a força bruta da declaração.

Fonte original: Poder360

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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