O burburinho da vida pública no Brasil, em especial na arena eleitoral, revela-se menos um coro harmonioso de vozes e mais um ruído cacofônico onde as palavras se perdem e os fatos se contorcem. Quando a própria fonte de informação se contradiz em pontos cruciais, o que resta não é debate, mas simulacro. A confusão política que emana do Acre e de Brasília, com suas tramas de condenações, ambições e financiamentos obscuros, é um espelho dessa realidade turva, onde a veracidade se tornou uma virtude rara, e a distinção entre o que é e o que se quer fazer crer se esfumaça perigosamente.
Tomemos o caso da condenação do ex-governador Gladson Cameli pelo STJ, que, se mantida pelo STF, desenharia um novo tabuleiro para a disputa ao Senado. Os movimentos subsequentes – o olhar faminto de diversos deputados pela vaga, a conversa agendada com Vagner Sales para alinhar campanhas – são, em si, parte da dialética inerente à política. Mas é a densa névoa da desinformação que turva a visão. A declaração do senador Flávio Bolsonaro, negando qualquer contato com o banqueiro Daniel Vorcaro, implodiu dias depois com a divulgação de um áudio que expunha uma intimidade desmentida, um pedido apressado de liberação de R$ 134 milhões para financiar um filme. Mais grave ainda: a mesma narrativa que expõe a mentira do senador afirma, em contradição interna e insolúvel, que o produtor do filme, Mário Frias, “não recebeu um centavo” de Vorcaro, enquanto assegura que “64 dos 134 milhões já tinham sido liberados”. A sanidade cívica exige que a palavra dita e o fato noticiado guardem alguma reverência à realidade, sob pena de a própria razão pública se esfacelar, como Chesterton, com sua perspicácia para desvendar o óbvio invertido, talvez sorrisse com amargor diante da lógica que permite a uma mesma narrativa afirmar um fato e desmenti-lo na frase seguinte.
Essa falha elementar de veracidade no próprio relato jornalístico não é um detalhe, mas o sintoma de uma desordem maior na ordem moral pública. Não se trata apenas de políticos que faltam com a verdade – um mal antigo –, mas de uma comunicação que se permite a ilações e especulações sem base factual robusta, apresentando-as como um quadro fidedigno. Quando o articulista se permite projetar “certeza de um segundo turno” ou afirmar que um áudio “tende a implodir” uma candidatura, ou ainda generalizar sobre “o maior eleitor” ser a “parcela ampla que vende os seus votos”, a linha entre análise e profecia, entre fato e wishful thinking, desfaz-se. O povo, a quem Pio XII contrapunha à massa, é composto por indivíduos com capacidade de discernimento, e não por um agregado amorfo facilmente manipulável ou reduzível a um mero cálculo venal. Menosprezar a integridade do eleitor, reduzindo-o a uma mercadoria, é atentar contra a dignidade fundamental da participação cívica e contra a justiça devida ao corpo político.
Os movimentos de bastidores, como a frustrada tentativa do prefeito de Feijó de obter recursos estaduais, ou a desconsideração do senador Sérgio Petecão em relação às alianças para o governo, são elementos de um jogo político que se torna ainda mais opaco quando envolto em linguagem “carregada” e carente de dados verificáveis. A ausência de detalhes sobre pesquisas internas ou a falta de sustentação para projeções futuras não informam, mas apenas adensam a confusão. O que se ganha em dramaticidade retórica, perde-se em clareza factual e em confiança pública. A credibilidade da imprensa, assim como a dos governantes, se constrói na paciente e honesta adesão ao que é real.
Para uma sociedade que almeja a vida comum, a prioridade deve ser a reconstrução de uma esfera pública onde a verdade possa respirar. Isso exige não apenas a honestidade dos atores políticos, mas, crucialmente, a responsabilidade e a humildade dos que informam. É preciso depurar o debate da especulação infundada, da contradição interna e do tom editorial que suplanta a descrição. A política, em sua essência, é a arte de buscar a ordem justa para a cidade terrena, e essa ordem é impossível de edificar sobre os alicerces movediços da mentira e da confusão.
O dever de todo cidadão, e em especial de quem tem voz na praça pública, é de discernir a verdade, mesmo quando ela se esconde sob camadas de fumaça e de interesse. A justiça na vida pública começa pela honestidade do que se narra e do que se ouve.
Uma comunidade política madura não se contenta com o reflexo distorcido no espelho embaçado da desinformação, mas exige a clareza da luz para julgar e decidir.
Fonte original: ac24horas.com – Notícias do Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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