Quando a fundação de uma casa range sob o peso de cada nova estação, o que se celebra não é a sua solidez, mas a sua teimosia em não ruir. No Peru, o avanço para um segundo turno presidencial, com Roberto Sánchez e Keiko Fujimori disputando o voto, poderia ser saudado como a mera continuidade do rito democrático. Contudo, essa aparente normalidade mascara uma patologia institucional tão profunda que o simples ato eleitoral, por si só, não mais garante a legitimidade ou a estabilidade de que a na nação necessita desesperadamente.
Os fatos são frios e claros: após uma apuração que se arrastou e uma diferença apertada, Sánchez, aliado do ex-presidente Pedro Castillo, enfrentará Fujimori, filha do falecido ex-presidente. Mas a matemática das urnas não explica a geografia do caos. A renúncia do chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe), Piero Corvetto, sob a sombra de “irregularidades no processo”, não é um mero deslize burocrático; é uma fenda na honestidade elementar que deve reger a vida pública. Como esperar confiança num sistema onde a integridade processual é publicamente questionada por seus próprios gestores?
Mais que um episódio, a crise eleitoral peruana é um sintoma da enfermidade institucional crônica. Oito presidentes em seis anos e a tentativa inconstitucional de dissolver o Congresso por um mandatário recente não são acidentes, mas a manifestação de uma estrutura política que não consegue gerar consenso ou governabilidade duradoura. Os baixíssimos percentuais de voto para os primeiros colocados (17,18% para Fujimori e 12,03% para Sánchez) revelam não um povo com uma vontade política coesa, mas uma massa fragmentada, sem um horizonte comum capaz de conferir autoridade moral e política aos seus eleitos. Pio XII advertia contra a transformação do povo em massa, onde a vontade é manipulada e a participação genuína cede lugar à mera agregação numérica. Sem a base de um verdadeiro povo, não há autoridade política que se sustente por muito tempo.
Essa fragmentação se traduz, na prática, em um risco iminente de ingovernabilidade. Com um poder legislativo já dominado por forças conservadoras – os partidos de Fujimori e López Aliaga lideram o Congresso bicameral – qualquer governo de esquerda terá um campo minado à frente. O desalinhamento ideológico entre Executivo e Legislativo, em um país tão acostumado ao impeachment e à ruptura, não é um desafio, é uma condenação antecipada ao impasse e à confrontação. A tentação de reduzir tudo a uma batalha binária entre “esquerda” e “direita” é um reducionismo perigoso, que ignora as falhas sistêmicas e históricas que minam a justiça institucional no país.
É preciso uma dose de humildade intelectual e política para reconhecer que o problema do Peru não se resolve apenas com a contagem de votos, por mais exata que seja. A questão não é se haverá eleições, mas que tipo de ordem essas eleições produzem. Chesterton, com sua perspicácia, diria que o paradoxo da modernidade é insistir em realizar o mesmo ritual com os mesmos ingredientes e esperar um resultado diferente. Insistir na “normalidade” de eleições que mal elegem, que geram instabilidade e que são permeadas por dúvidas sobre sua lisura é mascarar uma profunda crise de ordem moral pública.
A tarefa premente não é celebrar o que sobreviveu, mas reconstruir o que ruiu. Isso exige transparência total nas instituições eleitorais, responsabilização por cada “irregularidade” e um esforço para forjar uma base social e política minimamente unida em torno dos princípios de uma vida comum justa. O futuro do Peru não depende apenas de quem senta na cadeira presidencial, mas da força do cimento moral que une suas instituições e a confiança que seu povo pode, de novo, depositar nelas. Sem isso, cada eleição será apenas mais um tremor numa casa já abalada.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.