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Peru: Fujimori x Sánchez – Legados, Polarização e Crise Cívica

Peru enfrenta eleição polarizada entre Fujimori e Sánchez, não um futuro ideal, mas uma crise institucional profunda. O artigo explora legados sombrios, a falência da vida cívica e a busca por ordem.

🟢 Análise

A escolha que se impõe ao Peru não é entre dois futuros desejáveis, mas entre duas formas de prolongar uma agonia institucional que já dura décadas. O segundo turno presidencial, entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, não reflete um amplo consenso nacional, mas a exaustão de um eleitorado fragmentado, cujos candidatos mal alcançaram 17% e 12% dos votos no primeiro turno. Este cenário é o sintoma visível de uma crise profunda de confiança: um Congresso rejeitado por 87% da população e uma sociedade acuada por uma taxa de homicídios que duplicou em dez anos, atingindo 10,7 a cada 100 mil habitantes, sendo a violência a principal preocupação para mais da metade dos peruanos. É um país à beira da exaustão, onde a busca por ordem e segurança se choca com a tentação de soluções rápidas, muitas vezes autoritárias.

De um lado, Keiko Fujimori carrega o pesado legado de seu pai, Alberto Fujimori, cuja presidência entre 1990 e 2000 foi marcada por uma política de “juízes sem rosto” que organizações de direitos humanos afirmam ter levado à prisão de centenas de inocentes. Suas propostas atuais, como a de possivelmente retirar o Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos e resgatar medidas de “mão forte”, suscitam a preocupação legítima de uma erosão das salvaguardas democráticas. De outro, Roberto Sánchez, ex-ministro de Pedro Castillo, está associado a um governo que tentou um autogolpe em 2022, mergulhando o país em mais instabilidade. Embora seu histórico não seja de abusos sistêmicos consolidados, a associação com a instabilidade de um governo que buscou subverter a ordem democrática é inegável. A polarização entre o fujimorismo e a sombra do castillismo impede uma avaliação honesta das escolhas, pois os riscos são qualitativamente distintos: um representa o retorno potencial a um autoritarismo com violações institucionalizadas; o outro, a continuação de uma instabilidade crônica com tendências estatizantes.

O verdadeiro drama peruano não reside apenas na biografia de seus candidatos, mas na falência de suas instituições e na fragilidade da vida cívica. Quando a população desconfia de tal forma de seu parlamento e busca desesperadamente por segurança, corre-se o risco de confundir a mera “massa” com o “povo” autêntico. Pio XII nos advertia que o povo é um corpo vivo, com uma identidade e capacidade de se expressar através de organismos intermediários, enquanto a massa é uma aglomeração amorfa, facilmente manipulada pela demagogia. No Peru, a ausência de um tecido social intermediário robusto, capaz de canalizar as demandas legítimas e construir consensos, torna o ambiente fértil para propostas que prometem ordem a qualquer custo, mas que podem sacrificar a própria ordem moral pública.

É neste cenário de deserto político que a virtude da fortaleza se torna a bússola mais essencial. Não se trata apenas da fortaleza dos governantes para combater o crime, mas da fortaleza cívica do povo para resistir à tentação das soluções fáceis e populistas. É a coragem de exigir que a ordem se construa sobre a justiça, e não sobre a arbitrariedade. Isso implica rejeitar propostas que fragilizam os direitos humanos, como a expulsão sumária de migrantes venezuelanos sem documentos — que somam 1,6 milhão de pessoas no país —, um desafio que exige uma resposta marcada pela caridade e por uma ordem jurídica, não pela violência. A dignidade da pessoa humana, migrante ou cidadão, é inalienável e não pode ser sacrificada no altar da eficiência superficial.

A reconstrução de um Peru para além da polarização exige uma dose substancial de esperança, mas uma esperança que não seja passiva. Esta esperança deve inspirar a laboriosidade de edificar, pacientemente, uma nova ordem institucional. Significa fortalecer os corpos intermediários, garantir a transparência curricular nas escolas, zelar pela via pulchritudinis na vida pública e consolidar um sistema jurídico que seja justo e crível. A verdadeira tarefa não é escolher o menor dos males, mas cultivar as virtudes que permitem ao país transcender seus males históricos e construir um futuro onde a liberdade esteja ordenada à justiça.

O Peru está diante de uma escolha crucial: submeter-se à inércia de um ciclo de desconfiança e autoritarismo latente ou encontrar a fortaleza para, com esperança, reconstruir suas instituições sob os pilares de uma ordem moral inabalável. O verdadeiro triunfo não reside na escolha menos dolorosa, mas na coragem de edificar um Peru onde a justiça e a dignidade floresçam, mesmo sob as ruínas da desconfiança.

Fonte original: Jornal de Brasília

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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