O termômetro de maio, que agora o Datafolha leva a campo, promete medir as feições do Brasil eleitoral de 2026. Com seus 2.004 entrevistados, margem de erro apertada e uma lista extensa de temas – da avaliação do governo Lula às características ideais de um ministro do STF, passando pela saúde das contas familiares –, a pesquisa se apresenta como um espelho de amplo espectro, um painel de cristal a refletir o humor e as intenções da nação. Mas um espelho não é apenas uma superfície passiva; ele pode também distorcer, amplificar ou, na pior das hipóteses, fabricar um reflexo, transformando a observação em profecia autorrealizável.
A inteligência doutrinária da Igreja, que tem em Pio XII um mestre sobre a distinção entre povo e massa, nos alerta: a imprensa, os institutos de opinião e toda a estrutura de comunicação têm o grave dever de servir à verdade, não de manipular a realidade para massificar consciências. Um povo livre se forma pelo discernimento, pela capacidade de julgar os fatos em sua plenitude, e não por uma narrativa que, sob o pretexto de mensurar tendências, acaba por cimentá-las. A inquietação legítima que surge de um mapeamento tão abrangente, e ainda mais quando a própria notícia de sua confecção já é gerada por inteligência artificial, é justamente essa: estaremos a receber um retrato fiel ou um roteiro para o próximo ato?
O paradoxo que Chesterton, em sua lucidez, adoraria desmascarar é o da polarização. Quando uma pesquisa insiste em testar exaustivamente cenários de segundo turno entre os dois nomes que já dominam a cena – Lula e Flávio Bolsonaro – ela faz mais do que registrar uma tendência. Ela a robustece, a normaliza e, de certa forma, a legitima como o destino inevitável. Ao dispor uma miríade de nomes de baixíssima expressão ao lado dos protagonistas, a narrativa da pesquisa pode, inadvertidamente, diluir a atenção sobre alternativas viáveis e dar uma falsa impressão de que a disputa é, e só pode ser, este embate binário. A sanidade nos manda desconfiar de lógicas que se pretendem neutras, mas que terminam por estreitar o campo da liberdade.
Há uma assimetria de poder gritante na capacidade de transformar qualidades complexas em meras métricas percentuais. Perguntar se um candidato tem “Deus no coração”, se é “democrático” ou “corrupto” é reduzir o juízo moral, que pertence à consciência do cidadão, a um dado estatístico que, uma vez publicado, se petrifica em “fato”. Isso não apenas simplifica indevidamente a figura pública, mas instrumentaliza a própria moralidade, que é um bem intrínseco, para fins de cálculo eleitoral. A honestidade intelectual nos pede que reconheçamos a pluralidade das motivações humanas e a profundidade dos valores, que não se dobram a gráficos e percentuais.
O papel da Folha da Manhã como encomendadora e a presença de conteúdo gerado por IA na reportagem que divulgará a pesquisa acentuam a necessidade de justiça na comunicação. A transparência sobre os vieses, tanto editoriais quanto algorítmicos, é a dívida que se tem com o debate público. Um povo livre, como nos ensina Leão XIII, exige uma liberdade ordenada, onde a informação serve para edificar, não para demolir o discernimento. A pesquisa, em vez de ser um instrumento para a formação do “povo versus massa”, deve ser um subsídio para que o cidadão possa exercer sua liberdade de escolha em consciência e de forma informada.
Não se trata de negar a utilidade de medir a opinião pública, mas de exigir que essa medição se faça com a honestidade de quem sabe que está a manusear o tecido da vida cívica. O que se espera não é um oráculo que dita o futuro, mas um mapa que, com prudência, assinale os desafios e os caminhos, sem pré-determinar o destino. A liberdade do voto, a riqueza do debate e a possibilidade de emergência de novas lideranças não podem ser reféns de uma “profecia da polarização” fabricada, ou mesmo apenas reforçada, pelas ferramentas que deveriam servir à democracia.
A pesquisa do Datafolha não é um fim em si, mas um ponto de partida para a reflexão. Que seus números sejam lidos não como a sentença final de um futuro inalterável, mas como um convite ao discernimento e à ação de um povo que se recusa a ser massa, e que prefere a lenta e árdua construção da verdade à confortável ilusão de um destino já traçado.
Fonte original: VEJA
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.