No salão de debates onde se forjam as percepções da diplomacia, como o recente “Summit Valor Brazil-USA” em Nova York, é fácil cair na tentação de crer que os grandes ventos das eleições – sejam elas americanas ou brasileiras – são os únicos a guiar o destino das relações bilaterais. As análises se esmeram em dissecar o peso de Donald Trump, a imprevisibilidade de tarifas, a dança dos partidos no Congresso, e a eventual influência de um líder sobre o pleito alheio. Há, sem dúvida, uma agitação legítima na superfície, um burburinho que se prende à personalidade dos governantes e à volatilidade dos votos. A própria convivência, por vezes inusitada, entre Trump e Lula, que apesar dos campos ideológicos opostos se reúnem na Casa Branca para tratar de comércio e minerais, é prova de que a política não se resume a dogmas engessados.
Entretanto, se a cena é dominada pelo imediatismo eleitoral, o olhar mais profundo, aquele que busca as causas permanentes e a ordem dos bens, detecta correntes mais fortes sob a espuma da superfície. A preocupação com a estabilidade e a previsibilidade é legítima, afinal, nenhum país quer ver seus acordos desfeitos ou suas indústrias abaladas por um tuíte ou um resultado de urna. Empresas americanas que ponderam investir em minerais críticos no Brasil demandam “segurança” e “maneiras seguras de desenvolver componentes”, não apenas a simpatia do presidente da vez. Aí reside a primeira distinção: o que parece ser mera oscilação política é, muitas vezes, a sombra de interesses econômicos e geopolíticos de longo prazo que se manifestam sob roupagens distintas.
São Tomás de Aquino, com sua lucidez sobre as causas e fins, nos ensinaria que a finalidade última da comunidade política não é o triunfo de uma facção, mas o bem da cidade. E o bem da cidade, no plano internacional, é uma ordem justa de comércio, segurança e cooperação que transcende mandatos. É aqui que o repertório do Magistério ganha corpo. Leão XIII já advertia que a família é anterior ao Estado, mas por analogia, os interesses perenes de uma nação, sua subsistência e seu papel no concerto global, precedem e devem guiar as estratégias de curto prazo. A insistência dos EUA em forjar acordos sobre minerais críticos com o Brasil, ou sua inquietação com a crescente presença chinesa na América Latina, não são caprichos de um governo, mas eixos de uma estratégia geopolítica que persiste independentemente do inquilino da Casa Branca.
A assimetria de poder é um fato inegável que molda essas relações. Os Estados Unidos, por seu peso econômico e geopolítico, possuem a capacidade de impor condições, seja por meio de tarifas ou de exigências para investimentos. Essa realidade não é meramente um artefato eleitoral, mas uma estrutura que precede e atravessa os ciclos de voto. Por isso, a pergunta incômoda é: se a demanda por minerais críticos é tão estratégica, por que sua aquisição segura dependeria da “crença” de empresas e não de garantias governamentais bilaterais mais robustas, concebidas para durar além dos humores presidenciais? A resposta é que o jogo é complexo, com diplomatas e estrategistas de ambos os lados constantemente buscando proteger o que é vital para o povo, e não apenas para o partido no poder.
Contudo, seria reducionismo ignorar que a personalidade e as prioridades de líderes eleitos podem, sim, atuar como potentes catalisadores. Um presidente como Donald Trump, com sua inclinação por tarifas e seu estilo de “último minuto”, demonstra que o fator pessoal e eleitoral não é apenas superficial, mas capaz de acelerar ou desviar a rota de interesses estruturais. A retórica e as ações podem, por vezes, definir a prioridade e o método de perseguição desses interesses estratégicos, dando-lhes uma roupagem particular, como a suposta “relação amistosa” entre Trump e Lula, que tanto pode ser sinal de pragmatismo como de conveniência tática mútua.
A verdadeira justiça nas relações internacionais exige que se reconheça a complexidade: há interesses estruturais que como correntes marítimas profundas persistem, e há marés eleitorais que agitam a superfície e podem, por vezes, desviar um navio ou acelerar sua viagem. A arte da diplomacia e da boa governança é a de discernir o que é duradouro do que é efêmero, e de atuar com veracidade para que a busca pelo destino comum não seja refém de sentimentalismos políticos ou de vantagens eleitorais de momento. A estabilidade de uma nação, e a solidez de suas alianças, não se constroem sobre a areia movediça das pesquisas, mas sobre o fundamento da reta razão e dos bens que perduram.
Os ventos da política eleitoral podem mudar, mas a bússola dos interesses nacionais e do bem da cidade deve apontar sempre para a ordem e a prosperidade duradouras.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.