A cena se repete com a constância de uma tragédia grega, embora vestida com o pragmatismo geopolítico moderno: de um lado, a nação poderosa que impõe um cerco cada vez mais apertado; de outro, uma ilha exausta que se move entre a resistência altiva e o desespero de sua população. Washington, com uma mão, intensifica as sanções econômicas, asfixiando os poucos veios que ainda poderiam levar vida à já combalida economia cubana; com a outra, oferece um pacote de ajuda humanitária, como quem tenta apagar um incêndio com um conta-gotas, mas apenas depois de ter jogado mais gasolina. É o paradoxo de um “socorro” que chega em meio a um castigo autoimposto, uma contradição que fere a reta razão e, mais ainda, a caridade cristã.
A realidade nua e crua é que o povo cubano vive sob uma escassez implacável. Jorge, o artista de Havana, não mente: “Os apagões são intermináveis. Há água por uma hora por dia e às vezes até menos”. É diante dessa miséria cotidiana que a ação política deveria se curvar, buscando a verdadeira ordem dos bens. O Magistério da Igreja, notadamente em Pio XII, advertiu contra a redução do “povo” a uma “massa” manipulável, mero objeto de estratégia. Os cidadãos de Cuba são pessoas concretas, com dignidade inerente, e não peões num tabuleiro de xadrez global. As pressões sobre o regime cubano, legítimas em sua busca por liberdade e direitos, não podem ser exercidas de forma a esmagar o homem comum, negando-lhe os meios mínimos de subsistência.
A estratégia americana, embora alegue buscar uma “abertura econômica mais ampla” e a “libertação de presos políticos”, incorre numa desproporção. As sanções contra conglomerados como a Gaesa e o alargamento de seu alcance a empresas internacionais – como a mineradora canadense Sherritt, que se retira da ilha – visam claramente estrangular a economia. Como, então, esperar que tal aperto resulte em estabilização, e não em colapso? A história nos mostra que pressões econômicas extremas raramente abrem caminho para a democracia; mais frequentemente, fortalecem os elementos mais intransigentes do regime, fornecendo-lhes o inimigo externo ideal para justificar a repressão interna e o controle absoluto. A dignidade da pessoa humana exige que os meios utilizados em política externa sejam proporcionais aos fins e não sacrifiquem inocentes.
É neste ponto que a Doutrina Social da Igreja oferece um balizamento essencial. A subsidiariedade ensina que uma instância superior não deve subtrair à inferior a tarefa que esta pode realizar. Da mesma forma, uma nação soberana, por mais fragilizada que esteja, tem o direito de determinar seu próprio destino. A intervenção externa, mesmo que bem-intencionada em seus objetivos declarados, torna-se ilegítima quando se traduz em coerção que sufoca a capacidade de autogoverno e agrava o sofrimento do povo, gerando ressentimento e não genuína mudança. A oferta de US$ 100 milhões em ajuda humanitária, entregue por meio da Igreja Católica e organizações independentes, embora possa aliviar a dor imediata, não anula o dilema moral de um “remédio” condicionado por uma doença que a própria mão que oferece o “remédio” ajuda a agravar.
O secretário de Estado Marco Rubio expressa ceticismo sobre mudanças profundas, e há quem sugira que o “povo deseja que os americanos assumam o controle”. Mas a voz de um único observador não pode generalizar a complexidade de um povo. A verdadeira justiça e a caridade política exigem que se olhe para o bem duradouro do povo cubano, que inclui sua soberania e sua capacidade de construir um futuro próprio, com mais liberdade e sem a humilhação da dependência. Não se pode pregar a abertura e, ao mesmo tempo, fechar todas as portas.
O caminho para uma Cuba verdadeiramente liberta e próspera não passa pelo estrangulamento econômico que vitima sua gente, nem pela imposição externa de uma agenda, por mais justa que pareça. Requer antes uma magnanimidade que saiba distinguir a intransigência de um regime da necessidade e do anseio de seu povo. A coerência entre meios e fins é um imperativo moral inegociável, e a paz duradoura se edifica sobre o respeito mútuo, a justiça reta e a real disposição de apoiar o florescimento autônomo, e não a submissão forçada, de cada nação.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.