O Rio de Janeiro, terra de beleza e de paradoxos lancinantes, assemelha-se por vezes a uma velha mansão que, por descaso e sucessivas infiltrações, viu seus alicerces serem minados. O que se ergue sobre eles é um espetáculo de denúncias escandalosas, como as proferidas pelo deputado Otoni de Paula, que, ao virar a metralhadora verbal contra seus antigos aliados, expõe feridas abertas no tecido político fluminense e nacional. Há uma torrente de acusações gravíssimas: “quadrilhas” operando no seio do Estado, secretários presos, ex-governadores condenados por desvio de verbas, deputados estaduais com supostas ligações criminosas, e uma operação policial de alto impacto envolta em denúncias de conluio e aviso prévio. A imagem de um “narcoestado” ou de um governo sem “pudor de roubar” não é um arroubo lírico, mas o eco de uma realidade que clama por justiça, atestada por condenações judiciais e inquéritos que se arrastam.
É preciso reconhecer a gravidade da chaga. A corrupção e o aparelhamento do Estado pelo crime organizado representam uma afronta direta à justiça e à ordem pública. O Catecismo da Igreja Católica, em consonância com a Doutrina Social, ensina que a autoridade política deve agir para o bem comum, defendendo a liberdade e a propriedade de todos e não permitindo que o poder seja instrumentalizado para interesses privados ou criminosos. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertiu contra a divinização de um Estado que se afasta de seus propósitos legítimos e se torna fim em si mesmo, ou, pior, um instrumento de opressão e espoliação. Quando secretários de Estado são presos em série, ou quando o Tribunal Superior Eleitoral condena um governador por desvio de verbas, a sociedade assiste à corrosão dos elos de confiança que sustentam a vida comum.
No entanto, a veemência da denúncia, para ser eficaz, não pode abdicar da veracidade e da coerência. Otoni de Paula, ao fazer acusações de tamanha envergadura — de que “mais de 40 deputados estaduais têm alguma associação com o crime organizado”, ou de que o líder do Comando Vermelho, “Doca”, foi avisado de uma megaoperação — joga a responsabilidade da prova para terceiros. A denúncia pública é legítima, mas a seriedade da alegação exige que os elementos de prova sejam apresentados aos órgãos competentes. A ausência de filmagens das câmeras corporais da Polícia Militar em uma operação com mais de cem mortos é, por si só, um indício preocupante da falta de transparência, mas não legitima generalizações sem base em evidências formais. A seletividade estratégica, que leva a criticar virulentamente ex-aliados enquanto se busca apoio em figuras antes combatidas, sugere uma agenda que transcende a mera paixão por um Rio mais limpo.
O oportunismo político, travestido de cruzada moral, é uma contradição que Chesterton bem reconheceria. A “loucura lógica” se manifesta quando a imoralidade política se naturaliza a ponto de se tornar a régua da ação, e o ex-bolsonarista busca no ex-crítico um “salvador” apenas por conveniência, numa dança de cadeiras onde o princípio parece menos importante que a sobrevida política. O problema, então, não reside apenas na podridão exposta, mas na desordem que impede a identificação e a cura. Quando o próprio denunciante muda de bandeira e de alianças com a desenvoltura de um ilusionista, a credibilidade se esvai e o verdadeiro objetivo da denúncia — a restauração da ordem justa — perde-se no pântano do partidarismo.
É ilusório crer que a mera troca de nomes ou o realinhamento de forças venha a resgatar a dignidade da política ou a estabilidade do Estado. A afirmação de que “a direita quebrou o Rio de Janeiro”, feita por quem já a integrou, é um reducionismo conveniente para o reposicionamento. A complexidade dos problemas do Rio — desde a falência fiscal até a guerra urbana — exige uma magnanimidade de propósito que transcenda a acusação fácil e o cálculo eleitoral. O problema da criminalização da misoginia, por exemplo, não pode ser reduzido a um embate ideológico entre machismo e feminismo radical, mas deve ser abordado com a seriedade que a justiça exige, buscando uma definição legal clara que proteja a mulher sem tolher a liberdade de expressão nem cair em armadilhas de rótulos.
A solução para a podridão institucional não está em trocar um tipo de lama por outro, nem em apoiar o “menos pior” sem uma profunda análise dos princípios. A experiência da “realeza social de Cristo”, como ensinava Pio XI, não é uma abstração mística, mas o chamado à retidão e à ética em todas as esferas da vida pública e privada. A reconstrução da “ordem moral pública”, tão cara a Pio XII, exige a firmeza de caráter dos governantes e a vigilância dos cidadãos. É preciso, sobretudo, a coragem de ser coerente, de dar testemunho de verdade mesmo quando isso custa alianças e votos. A cidade, para ser redimida, não precisa de polemistas que apenas trocam de lado, mas de construtores que erguem pontes de virtude sobre os escombros da corrupção, ancorados na inabalável rocha da justiça.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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