A promessa de uma vida sem o “atrito” da decisão, onde a máquina, com sua inteligência artificial, compara, escolhe e compra por nós, já não é um mero devaneio futurista, mas uma realidade incipiente nas transações brasileiras. As gigantes do setor de pagamentos, como Visa e Mastercard, celebram o “comércio agêntico” como a nova fronteira do e-commerce, com operações totalmente autônomas já em teste e a Elo vislumbrando uma jornada de compras sem qualquer intervenção humana em “meses ou anos”. O Brasil, elogiado por sua rápida adoção de inovações financeiras, é visto como um protagonista nessa corrida, prometendo um mercado global de US$ 5 trilhões até 2030. A retórica é de agilidade, segurança da transação e conveniência sem precedentes.
Mas por trás da cortina cintilante da “agilidade” e da “conveniência” que as bandeiras de cartão tão eloquentemente prometem, esconde-se uma questão fundamental: a quem, afinal, pertence o leme da decisão financeira? A exultação de uma pesquisa que mostra brasileiros usando IA para “comparar preços ou buscar ideias de presente” é astutamente convertida em justificativa para a delegação total da agência de compra. Esta é uma inversão perigosa. O que se oferece como libertação das “compras na madrugada” pode, na verdade, ser uma sutil, porém profunda, diluição da autonomia pessoal, pavimentando o caminho para uma espécie de massificação do consumo, onde os algoritmos moldam os desejos e as necessidades com uma precisão opaca. Pio XII já alertava para os perigos de reduzir o homem a uma massa passiva, agora não mais por imposição estatal, mas pela sedução de uma conveniência tecnológica.
A `justiça` exige que a relação entre quem oferece um serviço e quem o utiliza seja balizada pela clareza e pela capacidade de responsabilização. As “garantias de segurança” mencionadas pela indústria referem-se à integridade técnica da transação – autenticação, tokenização –, o que é louvável, mas silenciam sobre a segurança da decisão de compra. Quando um agente de IA assume a “jornada totalmente autônoma”, como será garantida a `veracidade` da informação que o levou à compra? Que mecanismos asseguram que os interesses de longo prazo do consumidor – e não os do algoritmo otimizado para vendas, promoções de parceiros ou para o puro volume de transações – prevalecerão? A opacidade desses sistemas, combinada com a assimetria de poder entre grandes corporações e o usuário comum, cria um terreno fértil para a manipulação e para o endividamento por impulso, especialmente entre os menos letrados digitalmente ou aqueles com tendência ao consumo descontrolado.
Há um paradoxo sutil e perigoso: na busca por eliminar toda a fricção, corremos o risco de anular a própria substância da escolha, trocando a liberdade de decidir pela facilidade de não ter de fazê-lo. A rápida adoção de tecnologias como o Pix ou o pagamento por aproximação no Brasil é citada como prova da receptividade do mercado, mas confunde a aceitação de uma tecnologia de meio com a delegação completa da agência de compra. Uma coisa é facilitar a transação, outra é transferir a deliberação. A distinção é crucial para a preservação da `prudência` individual na gestão do lar e das finanças, um pilar da Doutrina Social da Igreja, que reconhece a família como sociedade primeira e a liberdade ordenada na gestão da propriedade.
As corporações, em vez de apenas celebrar projeções de trilhões, precisam demonstrar uma `responsabilidade` profunda. A inovação é um bem, mas apenas se estiver a serviço do homem, e não o contrário. É imperativo que sejam desenvolvidos mecanismos claros de responsabilização e reparação para o consumidor em caso de transações fraudulentas, errôneas ou indesejadas. A transparência e a auditabilidade das decisões dos agentes de IA não podem ser uma opção, mas uma exigência ética e regulatória. Precisamos de salvaguardas que impeçam a exploração de vieses cognitivos e a manipulação de preços. A política de coleta e uso de dados pessoais deve ser cristalina, e o direito à privacidade, inegociável. Por fim, a educação dos consumidores, especialmente os mais vulneráveis, e a criação de um “botão de pânico” que permita a interrupção instantânea e fácil de todas as operações de um agente, não são meros acessórios, mas condições para um avanço tecnológico que respeite a dignidade humana.
É preciso, portanto, que a corrida agêntica no Brasil seja freada não pela inibição do progresso, mas pela reta razão do discernimento. Que o consumidor continue sendo o capitão de sua própria nau financeira, com as ferramentas da inteligência artificial como ventos propícios, mas jamais como uma correnteza invisível que o arrasta a portos não escolhidos.
Fonte original: Istoe dinheiro
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.