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Narcotráfico: A Raiz da Crise Colombiana Além das Urnas

As eleições colombianas ocorrem sob a sombra do narcotráfico, que corrói o Estado e a confiança. A solução exige justiça social e subsidiariedade, além de táticas políticas.

🟢 Análise

As urnas colombianas abrem-se para mais um pleito presidencial, mas o drama que se desenrola nas montanhas e planícies do país é mais profundo que qualquer disputa eleitoral. Não se trata apenas de escolher entre a continuidade das reformas sociais ou a guinada à “mão dura”; é a persistência de uma chaga que desafia qualquer ideologia: a supremacia do narcotráfico como motor econômico e a corrosão da confiança pública por uma violência que não cessa.

O governo de Gustavo Petro, representado agora por Iván Cepeda, tentou uma abordagem de reforço estatal, avançando na reforma agrária e na formalização de terras. Contudo, a ambiciosa reforma da saúde, que visava centralizar os recursos e expandir a atenção primária, jaz arquivada no Congresso, vítima da burocracia, das pressões corporativas e, talvez, de uma fé excessiva na capacidade centralizadora do Estado. É um lembrete contundente de que, como ensinava Pio XI, a “estatolatria”, a crença na onipotência estatal, costuma gerar mais ineficiência do que justiça, esmagando os corpos intermediários e a iniciativa local, onde a verdadeira subsidiariedade poderia florescer. A despeito de recordes em apreensões de cocaína, as plantações ilícitas, por sua vez, atingiram níveis históricos, expondo a amarga verdade: o Estado ainda não oferece alternativa econômica que compita com a lucratividade da ilegalidade, especialmente para comunidades vulneráveis.

De outro lado, a aposta na “mão dura” encarnada por Abelardo de la Espriella e Paloma Valencia reconhece a legítima preocupação com a segurança e a corrupção que flagelam o país – afinal, os grupos armados duplicaram seus membros e a taxa de homicídios é alarmante. No entanto, a mera intensificação de ofensivas militares ou de medidas punitivas, por mais justas que possam parecer, falha em confrontar as raízes culturais e econômicas da criminalidade. É a loucura lógica de quem pensa poder cortar as folhas de uma erva daninha sem arrancar sua raiz profunda. Mais ainda, propostas como a divisão de Cauca, com suas insinuações de conivência e segregação para as comunidades indígenas, demonstram um alarmante descaso com a caridade e a justiça devida a todos os membros do corpo social, independentemente de sua origem ou condição.

O verdadeiro dilema colombiano não reside na escolha entre a ineficiência de um estatismo bem-intencionado e a brutalidade de um autoritarismo reativo. A Colômbia precisa de uma fortaleza moral para desmantelar as estruturas que permitem que o narcotráfico continue a ser o “verdadeiro motor” de facções armadas e, frequentemente, de parcelas do próprio Estado. Isso exige a honestidade de reconhecer que o problema não é meramente de gestão ou de tática policial, mas de uma profunda falha na ordem dos bens, onde o lucro ilícito se impõe sobre a dignidade humana e a paz social.

A reconstrução da Colômbia passa pela reafirmação da justiça social e da subsidiariedade, tal como articuladas na Doutrina Social da Igreja. Não basta que o Estado declare guerra ao crime; é preciso que, com igual ou maior vigor, promova uma ordem profissional e econômica que ofereça caminhos de prosperidade lícita, fortalecendo as associações livres, o cooperativismo e a propriedade difusa. O saneamento do sistema de saúde requer mais que um mero controle estatal centralizado; exige uma rede de corpos intermediários eficazes, transparentes e responsáveis, que efetivamente sirvam ao povo, e não à burocracia ou ao enriquecimento indevido. Enfrentar a corrupção e a violência significa ter a coragem de investigar e punir, sem vacilar, as tramas entre o poder legal e o ilegal, que ainda hoje ensanguentam a história colombiana e roubam a esperança de um povo.

A verdadeira pacificação não se alcança com promessas vazias nem com retórica inflamada, mas com a semeadura paciente e corajosa da justiça, da verdade e da subsidiariedade no solo árido de uma nação ferida. É preciso cultivar a ordem onde hoje impera a lei da selva, e isso exige uma fortaleza que transcende a política partidária.

Fonte original: Correio do Estado

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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