As urnas em Cabo Verde, como ilhas de esperança erguidas em um mar de incertezas, preparam-se para receber o voto de mais de 400 mil cidadãos para eleger seu Parlamento e Primeiro-Ministro. O país, às portas de seu cinquentenário de independência, celebra a transcorrência pacífica do período pré-eleitoral, um sinal que, embora louvável, não basta para selar a justiça de um pleito. Contudo, a serenidade aparente esconde correntes subterrâneas que podem desestabilizar a legitimidade do resultado e a confiança cívica.
É louvável que o período pré-eleitoral tenha transcorrido sem a violência de outros palcos, mas a paz das ruas não se confunde com a justiça nas regras do jogo. Acusações de uso de recursos estatais pelo partido governista e de contorno da legislação eleitoral pela oposição pairam no ar como nuvens que não se dissiparam. A ausência de uma verificação independente e conclusiva dessas alegações, antes mesmo da contagem dos votos, macula o processo e mina a confiança no resultado. A justiça, virtude cardeal da ordem social, exige que o campo de jogo seja equitativo, e não apenas pacífico.
A opacidade sobre a metodologia e as fontes das pesquisas eleitorais, que tanto alardeiam disputas acirradas e altos índices de indecisos, é um veneno sutil para a retidão do sufrágio. Um povo que não tem acesso a fatos transparentes e auditáveis corre o risco de ser reduzido a uma massa, manipulada por narrativas partidárias e projeções sem base, incapaz de exercer sua liberdade ordenada, como ensinou Leão XIII. A veracidade da informação é a luz sem a qual a escolha livre se torna mera sombra.
Para além da neblina da informação, há fragilidades estruturais que exigem clareza. A concentração de poder legislativo na ilha de Santiago, elegendo quase metade dos parlamentares, pode sufocar as vozes e as necessidades das ilhas menores, distorcendo a representação real do arquipélago. A significativa diáspora cabo-verdiana, que representa 17% do eleitorado, também apresenta um desafio logístico e de fiscalização. A segurança e a integridade de seus seis deputados eleitos precisam de salvaguardas que vão além da mera declaração de intenções, para que não se tornem um flanco de vulnerabilidade.
A presença de observadores internacionais da União Africana e da Cedeao é um sinal positivo, sim, mas não pode ser um salvo-conduto para a ausência de robustos mecanismos internos de fiscalização. A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu que a solidez de uma ordem política depende não apenas de olhares externos, mas da capacidade intrínseca de suas instituições de autorregular-se com probidade e veracidade. É aqui que a responsabilidade da Comissão Nacional de Eleições se agiganta: garantir que o campo de jogo seja equitativo, que as acusações sejam investigadas com rigor e que a transparência seja a bússola de todo o processo.
As promessas ambiciosas de aumento salarial e ensino superior gratuito, apresentadas por ambos os lados, são mais do que meros acenos ao eleitorado; são compromissos que exigem um exame de honestidade fiscal e de laboriosidade na execução. Uma governança justa não se constrói sobre castelos de vento, mas sobre um planejamento que respeite os limites da realidade e a sustentabilidade a longo prazo, zelando pela ordem moral pública, como insistentemente apontava Pio XII.
Cabo Verde, em seu cinquentenário de independência, tem a chance de consolidar não apenas um rito eleitoral, mas uma democracia substancial. Para tanto, é preciso que a luz da justiça e da veracidade ilumine cada passo do processo, dissipando as sombras da dúvida e firmando a nação sobre rocha, e não sobre a areia das aparências.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.