A Bolívia, neste mês de maio, viu seu corpo social ser dilacerado não por um invasor externo, mas por uma paralisia autoimposta. As estradas, artérias da vida econômica e social, transformaram-se em barricadas que estrangulam o abastecimento de cidades inteiras, gerando fome e escassez de medicamentos. Diante deste cenário de caos, o Congresso boliviano aprovou uma lei que anula restrições à intervenção das Forças Armadas para conter protestos e bloqueios, conferindo ao presidente Rodrigo Paz a prerrogativa de decretar estado de sítio. A medida, celebrada por alguns como a restauração da ordem, acende, no entanto, uma luz de alerta grave sobre os fundamentos de uma sociedade justa.
A preocupação legítima emerge na sombra da escalada: a militarização da segurança interna, como bem advertiu a cientista política Lily Peñaranda, corre o risco de não pacificar, mas de acirrar os ânimos, transformando manifestantes em mártires e, paradoxalmente, fortalecendo a narrativa daqueles que desejam o colapso do governo. A intervenção militar, desviada de sua função primordial de defesa externa, em conflitos civis, tem um histórico amargo de exacerbamento de crises, erosão do espaço democrático e violação de direitos. O Estado tem, sim, o dever inalienável de garantir a ordem e a livre circulação, pilares da vida comum, mas a que custo de sangue e de princípios?
Aqui reside a distinção crucial que a veracidade nos impõe. Não é o caso de igualar a justa indignação popular à manipulação política, mas de discernir entre elas. A análise de que “30% é real insatisfação popular; 70% é aproveitamento político por parte de Evo Morales” não pode ser ignorada. Há, sim, uma fatia da população com reivindicações legítimas – sobre salários, serviços, gestão da terra – que o governo deve, com humildade e solicitude, buscar endereçar. Mas há também uma instrumentalização cínica dos protestos, orquestrada por lideranças políticas que, sob o manto de “defensores do povo”, buscam unicamente desestabilizar o governo para seus próprios fins. A ordem de prisão contra Mario Argollo, secretário-geral da COB, por promover violência, ilustra a dimensão criminosa dessa manipulação.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada em São Tomás de Aquino, defende que a autoridade legítima tem o direito e o dever de usar a força para manter a ordem e o bem comum, mas sempre com proporcionalidade. Pio XII nos alertou contra a perversão da democracia que transforma o “povo” em “massa” anônima e manipulável. Quando as aspirações de uma nação são sequestradas por grupos que usam a violência e o desabastecimento como chantagem política, a autoridade não pode abdicar de sua função de proteger os cidadãos. No entanto, a força militar, por sua natureza e treinamento, não é a ferramenta primária para mediar o descontentamento social. Seu uso deve ser a derradeira medida, aplicada com máxima prudência e sob rigoroso controle civil.
O perigo maior não é apenas a força bruta, mas o precedente. Recorrer sistematicamente ao Exército para resolver crises políticas e sociais é uma forma velada de estatolatria, a idolatria do Estado forte que se arroga o direito de esmagar corpos intermediários e vozes dissidentes sob o pretexto de ordem. A Bolívia corre o risco de cair na loucura lógica de ideologias que prometem liberdade pela opressão, ou paz pela guerra civil. A sanidade chestertoniana nos lembra que a verdadeira ordem não é uma camisa de força imposta de fora, mas a livre articulação de corpos sociais que encontram seu lugar na estrutura do Estado, desde o mais ínfimo sindicato até as famílias e comunidades indígenas.
O presidente Rodrigo Paz, ao denunciar à OEA que os protestos ameaçam a ordem democrática, acerta em sua percepção da gravidade, mas a resposta deve transcender a mera repressão. As concessões feitas (perdão fiscal, corte de salários) são um sinal de abertura, mas o diálogo franco e a busca por soluções políticas para as queixas legítimas devem preceder, ou ao menos acompanhar, qualquer ação de força. O caminho para a estabilidade boliviana não se pavimenta com a intimidação, mas com a restauração de um tecido social que respeite as liberdades ordenadas, promova a justiça distributiva e eduque seus cidadãos para a verdadeira solidariedade.
O corpo político boliviano só encontrará verdadeira paz quando o direito à ordem e o dever da veracidade se encontrarem no leito da justiça, e não na lâmina da espada.
Fonte original: Diário da Amazônia
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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